O Congresso que assume em 2027 terá influência direta sobre os projetos que avançarão, a destinação de recursos públicos e os rumos da política ambiental brasileira. Na Câmara, 183 dos 513 deputados estarão em seu primeiro mandato, uma renovação de 35,67%. No Senado, foram eleitos 54 parlamentares, renovando dois terços das 81 cadeiras.
Para quem atua na defesa dos animais e do meio ambiente, a nova composição exige atenção. Grupos políticos ligados ao agronegócio mantiveram uma presença expressiva na Câmara e ampliaram sua força no Senado, onde vários nomes associados ao setor conquistaram mandato.
Produção de alimentos e conservação ambiental podem caminhar juntas. O conflito surge quando a força política de um setor é usada para flexibilizar regras ambientais e atender interesses econômicos, reduzindo garantias construídas para proteger os animais, os biomas e as populações afetadas.
Um Congresso entre interesses econômicos e desafios ambientais
A atual Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) reúne 347 parlamentares de 19 partidos, sendo 299 deputados e 48 senadores. Dos 242 deputados integrantes da Frente que disputaram a reeleição, 176 conquistaram um novo mandato. Outros 17 deputados ligados ao grupo foram eleitos para o Senado. A composição definitiva para a próxima legislatura ainda será formada, com a possibilidade de novas adesões.
A presença de tantos partidos dentro da FPA não impede uma atuação coordenada em torno das pautas do setor. A Frente exerce um papel de organização e orientação técnica que reforça a defesa e a aprovação de temas de interesse do agronegócio.
Essa influência vai muito além do voto em plenário. Deputados e senadores ocupam comissões, assumem relatorias, apresentam projetos e emendas, participam das discussões sobre o orçamento e atuam na tramitação das propostas consideradas prioritárias.
Nos últimos anos, essa capacidade de articulação esteve presente no ataque as regras ambientais, muitas delas apresentadas como medidas de simplificação, segurança jurídica ou redução da burocracia.
O licenciamento ambiental é um dos exemplos mais recentes e mais marcantes.
O alerta do licenciamento ambiental
Em agosto de 2025, foi sancionada a Lei Geral do Licenciamento Ambiental, Lei nº 15.190, que ficou famosa pelo apelido “PL da Devastação”. A lei aprovada trazia grandes retrocessos ao processo de licenciamento ambiental e um enfraquecimento sistêmico da proteção aos diferentes processos de proteção.
No entanto, parte dos principais retrocessos aprovados pelo Congresso tinham sido vetados pelo Presidente da República. Aí entra a FPA, que utilizou sua influência e derrubou 52 pontos dos vetos, restabelecendo dispositivos relacionados à dispensa e simplificação do licenciamento e mantendo todo o potencial danoso da lei aprovada.
Para o Instituto AMPARA Animal, esse processo representou um grave retrocesso na proteção ambiental e atingiu um dos principais instrumentos disponíveis para prevenir danos provocados por empreendimentos.
E esses danos chegam diretamente aos animais.
Quando uma área é desmatada, desaparecem locais de abrigo, alimentação e reprodução de inúmeras espécies. Rodovias fragmentam habitats, isolam populações e aumentam os atropelamentos. Barragens, linhas de transmissão, mineração e a conversão de grandes áreas para produção alteram territórios inteiros. Para a fauna que vive ali, o impacto sem a devida mitigação, pode causar extinção.
O que ocorreu com o licenciamento deixa um alerta para a próxima legislatura. Uma bancada organizada, numerosa e presente em diferentes partidos terá condições de exercer forte influência sobre propostas ambientais que chegarem ao Congresso. A experiência dos últimos anos mostra por que acompanhar essa movimentação desde o início da tramitação é necessário.
Não é só o licenciamento ambiental que precisará de atenção
O novo Congresso também terá influência sobre decisões que envolvem a proteção dos biomas, o uso dos recursos naturais, a fiscalização ambiental, a conservação da biodiversidade e os direitos dos animais.
Entre as questões mais preocupantes está a caça, uma pauta que exige acompanhamento rigoroso diante de propostas que podem alterar as regras de proteção da fauna e utilizar o termo “manejo” como desculpa para liberar a caça esportiva. É fundamental que essas discussões considerem evidências científicas sobre o controle técnico de espécies exóticas invasoras, como os javalis, que apontam grandes riscos para como o manejo é realizado hoje e os impactos para a fauna sobre a liberação de caça esportiva.
Também estarão em jogo temas como o comércio e a criação de animais silvestres, o enfrentamento ao tráfico de fauna, a proteção de habitats, a mitigação dos atropelamentos de animais nas rodovias e o fortalecimento das políticas de prevenção e resposta a desastres ambientais.
É o caso do chamado PL dos Silvestres (PL 347/2003, atual 5809/2025 no senado), que busca fortalecer o enfrentamento ao tráfico de animais silvestres, e das propostas voltadas à implantação de passagens de fauna e à redução das colisões com animais em rodovias brasileiras, como o PL das Passagens de Fauna (PL 466/2015) .
O Congresso também terá papel fundamental nas discussões sobre mudanças climáticas, prevenção de desastres, qualidade da água, uso de agrotóxicos, proteção de áreas naturais e investimentos em pesquisa, fiscalização e conservação. São decisões que ultrapassam os interesses de um único setor e afetam diretamente a saúde, a segurança, a economia e a qualidade de vida de toda a população.
Por isso, mais do que nunca, precisamos de uma sociedade vigilante, informada e disposta ao diálogo. Defender os animais e o meio ambiente exige acompanhar projetos, compreender seus impactos, cobrar responsabilidade dos representantes eleitos e construir pontes para que a proteção da vida seja reconhecida como uma prioridade coletiva.
O Congresso não deve ser um espaço de disputa entre interesses econômicos e ambientais. Precisa ser um local de construção de soluções capazes de conciliar atividades produtivas, desenvolvimento, bem-estar animal e conservação da biodiversidade, sem abrir mão das garantias necessárias para proteger o presente e o futuro de todos.
A eleição acabou. O acompanhamento continua.
Durante as eleições, o Instituto AMPARA Animal levou essa discussão para a campanha Seu Voto Deixa Pegadas, mostrando como decisões tomadas no Congresso alcançam a fauna, os biomas e as políticas responsáveis por protegê-los.
O Painel Ampare o Seu Voto reuniu registros oficiais para que os eleitores pudessem consultar o histórico de votações de parlamentares e partidos e comparar o discurso eleitoral com as decisões tomadas ao longo dos mandatos.
Agora teremos novos deputados, novos senadores e uma nova configuração de forças dentro do Congresso. Nosso acompanhamento passa pela formação das comissões, pela escolha de seus presidentes e relatores, pelos projetos que ganham prioridade e pelo posicionamento dos parlamentares diante das pautas que afetam os animais e o meio ambiente.
Esse trabalho também passa pelo diálogo com quem pensa diferente. A incidência política exige capacidade de conversar, apresentar dados, participar das discussões legislativas e construir apoio para fazer avançar pautas importantes para os animais. Quando propostas ameaçarem proteções já conquistadas, será preciso agir para impedir novos retrocessos.
Para 2027, queremos dar um passo ainda maior nesse compromisso. Nossa intenção é ampliar o Painel Ampare o Seu Voto e a campanha Seu Voto Deixa Pegadas, transformando-os em plataformas de acompanhamento e vigilância legislativa, capaz de aproximar a sociedade das decisões tomadas no parlamento e fortalecer a mobilização em defesa dos animais e do meio ambiente.
Porque nossa luta não termina com a eleição de um representante, com a aprovação de uma lei ou com o encerramento de uma campanha. Ela está em cada decisão que pode ampliar ou reduzir a proteção de milhões de vidas.
E esse compromisso não pode ser apenas das organizações de proteção animal. Precisamos nos unir como sociedade para exigir que os direitos dos animais sejam efetivamente considerados, representados e defendidos nas políticas públicas.
Isso significa acompanhar, questionar, dialogar, participar e cobrar resultados. Significa também reconhecer e apoiar avanços, independentemente de quem os proponha, e construir uma atuação coletiva capaz de impedir que conquistas importantes sejam perdidas.
As urnas definiram quem ocupará as cadeiras do Congresso nos próximos anos. Agora começa outra etapa: acompanhar de perto o que cada parlamentar fará com o mandato que recebeu.
O futuro que queremos construir
Há mais de 16 anos, o Instituto AMPARA Animal atua em diferentes frentes para transformar a realidade dos animais no Brasil, promovendo o bem-estar, a adoção responsável, a educação ambiental, a conservação da fauna silvestre e a defesa de políticas públicas.
Mas sabemos que não basta cuidar das consequências. Precisamos enfrentar as causas dos problemas que ameaçam os animais e o meio ambiente.
Nosso maior sonho é viver em uma sociedade em que os direitos dos animais sejam verdadeiramente respeitados e protegidos, em que a conservação da biodiversidade e a coexistência sejam prioridades e em que tantas organizações não precisem existir para reparar danos que poderiam ter sido evitados.
Para isso, precisamos reconhecer que a proteção animal e ambiental não pode continuar sendo uma pauta secundária na escolha dos nossos representantes. As decisões políticas afetam milhões de vidas, a saúde da população, o equilíbrio dos ecossistemas e o futuro das próximas gerações.
Enquanto essa realidade não chega, seguiremos trabalhando, conscientizando e mobilizando a sociedade para transformá-la.
O voto é apenas o começo. E a responsabilidade de construir um futuro melhor para todos é (e precisa ser) coletiva.
Texto escrito por Filipe Reis, Coordenador de Biodiversidade e Joana Dias Ho, Coordenadora de Comunicação do Instituto Ampara Animal.



