Iniciativa do Instituto AMPARA Animal retoma movimento iniciado há uma década para ampliar a proteção da espécie e alerta para os impactos da perda de habitat, atropelamentos, incêndios e conflitos com seres humanos
Quando pensamos em onças, uma imagem quase sempre vem à mente primeiro: a pelagem manchada, o olhar intenso e a força de um dos maiores símbolos da fauna brasileira. Mas existe outra onça que raramente ocupa o mesmo espaço no imaginário popular e nas discussões sobre conservação.
A onça-parda (Puma concolor) é o segundo maior felino das Américas e exerce um papel fundamental no equilíbrio dos ecossistemas. Como predador de topo de cadeia, contribui para a regulação das populações de suas presas e para a manutenção das relações ecológicas nos ambientes onde vive.
Apesar de sua importância, a espécie ainda recebe pouca atenção.
Enquanto a onça-pintada conquistou reconhecimento como símbolo da biodiversidade brasileira e mobiliza importantes esforços de conservação, a onça-parda permanece menos conhecida e frequentemente estigmatizada. Quando aparece próxima a cidades, propriedades rurais ou criações domésticas, muitas vezes é tratada como invasora ou ameaça.
Mas existe outra perspectiva para essa história: não são as onças que estão avançando sobre os nossos territórios. Somos nós que estamos transformando os delas.
Uma espécie tentando sobreviver em uma paisagem cada vez mais transformada
A expansão urbana e agropecuária, a abertura de estradas, a fragmentação e perda de habitats e os incêndios transformam rapidamente as paisagens das quais a onça-parda depende para encontrar alimento, abrigo, parceiros e áreas adequadas para se reproduzir.
À medida que os ambientes naturais diminuem e se tornam mais fragmentados, esses animais precisam atravessar áreas cada vez mais modificadas pela presença humana. Rodovias, cidades, condomínios, plantações e pastagens passam a fazer parte de seus deslocamentos.
É nesse cenário que aumentam também as situações de conflito, atropelamentos, perseguições e mortes por retaliação.
A consequência pode ser percebida nos animais que chegam aos centros de atendimento e projetos de conservação: vítimas de atropelamentos, queimadas, máquinas agrícolas, conflitos com seres humanos ou filhotes que perderam suas mães.
Alguns podem ser tratados, reabilitados e retornar à natureza. Outros carregam sequelas físicas ou comportamentais que tornam esse retorno impossível e precisam permanecer sob cuidados humanos pelo restante de suas vidas.
É justamente para colocar essa realidade em evidência que o Instituto AMPARA Animal lança uma nova fase da campanha Todos pelas Onças, em 2026.
Uma história que começou há dez anos
A campanha Todos pelas Onças acompanha a própria trajetória de atuação do Instituto AMPARA Animal com a fauna silvestre.
Em 2016, com a criação da frente AMPARA Silvestre, o Instituto ampliou sua atuação para responder também aos desafios enfrentados pelos animais silvestres brasileiros. Naquele momento, nasceu o projeto #TodosPelasOnças, inicialmente mobilizado para transformar a realidade de onças que, depois de sofrerem com diferentes impactos provocados pela ação humana, não tinham mais condições de retornar à natureza.
O objetivo era oferecer estruturas mais adequadas, espaçosas e enriquecidas para animais que permaneceriam sob cuidados humanos, proporcionando melhores condições de bem-estar e qualidade de vida. A mobilização da sociedade e o apoio de parceiros, incluindo Giovanna Ewbank e Bruno Gagliasso, possibilitaram a construção de novos recintos e a transformação da realidade desses animais.
Mas o problema estava longe de terminar.
Em uma nova fase da campanha, em 2019, a AMPARA chamou atenção para a situação de onças-pardas que haviam enfrentado abandono, estruturas inadequadas e diferentes consequências de decisões humanas. A mobilização voltou a evidenciar uma questão que permanece atual: a onça-parda ainda é uma espécie pouco valorizada e pouco compreendida pela sociedade.
Dez anos depois do início desse movimento, Todos pelas Onças ganha uma nova dimensão.
Em 2026, a campanha não olha apenas para os animais que já sofreram as consequências da ação humana. Ela propõe uma pergunta ainda mais urgente: o que podemos fazer para evitar que novas onças tenham o mesmo destino?
A Voz da Onça-parda
Essa reflexão ganhou voz neste ano com o curta-metragem de animação “A Voz da Onça-parda”.
Com vozes de Sandy e André Trigueiro, a animação acompanha a trajetória de uma onça-parda desde filhote enquanto seu habitat é progressivamente transformado pela ação humana. A história, embora contada por meio da animação, representa uma realidade enfrentada diariamente não apenas pela espécie, mas por grande parte da fauna silvestre brasileira.
O curta propõe uma mudança de perspectiva: enxergar o território pelos olhos do animal.
Estradas atravessam seus caminhos. Florestas dão lugar a cidades, condomínios, plantações e outras estruturas humanas. Áreas antes conectadas tornam-se fragmentos isolados. E, quando a onça aparece perto de nós tentando sobreviver a essa nova paisagem, frequentemente é ela quem recebe o rótulo de invasora.
Idealizado por Daniela Andrade, publicitária, terapeuta integrativa, defensora da fauna silvestre e voluntária do Instituto AMPARA Animal, o projeto nasceu da preocupação com a realidade enfrentada pela fauna brasileira, especialmente no Estado de São Paulo, onde a expansão urbana, o crescimento de condomínios, o desmatamento e a fragmentação das áreas naturais vêm reduzindo os espaços disponíveis para a vida silvestre.
Com apoio do Instituto AMPARA Animal, “A Voz da Onça-parda” tornou-se também a provocação que abre a campanha Todos pelas Onças em 2026: antes de culparmos esses animais por estarem cada vez mais próximos de nós, precisamos compreender o que os trouxe até aqui.
De vítimas das nossas ações a protagonistas da conservação
A nova fase de Todos pelas Onças nasce como uma continuidade de um trabalho construído ao longo de uma década, mas também como um chamado para ampliar a forma como enxergamos a conservação da onça-parda e o bem-estar desses animais que são fadados ao cativeiro.
Proteger a espécie não significa apenas agir quando um animal já foi atropelado, ferido, órfão ou impossibilitado de retornar à natureza. Significa trabalhar para reduzir as ameaças antes que elas produzam novas vítimas.
Isso passa pela proteção e conexão dos habitats, pela implementação de medidas para reduzir atropelamentos de fauna, pelo planejamento da expansão urbana, pela prevenção de incêndios, pelo combate à caça e à perseguição e pela construção de estratégias que permitam a coexistência entre pessoas e animais silvestres.
Também passa por garantir atendimento, reabilitação, monitoramento e estruturas adequadas aos indivíduos que precisam de ajuda.
Em 2026, Todos pelas Onças busca mobilizar a sociedade para que a onça-parda deixe de ser lembrada apenas quando aparece em uma estrada, entra em uma cidade ou se torna vítima de algum conflito. A campanha busca ampliar a visibilidade da espécie e de suas ameaças, conscientizar sobre a necessidade de coexistência e reforçar uma responsabilidade que é coletiva: se nossas escolhas transformam os territórios e impactam a vida desses animais, também cabe a nós construir caminhos para protegê-los.
Queremos que a onça-parda seja reconhecida pelo que representa enquanto ainda está livre, percorrendo seus territórios e cumprindo seu papel na natureza. Mas também precisamos olhar para aquelas que já perderam essa possibilidade.
Todos pelas Onças
Para ampliar esse movimento, a campanha deste ano conta também com o apoio do Razões para Acreditar, fortalecendo a mobilização e a arrecadação de recursos para as ações desenvolvidas em defesa das onças-pardas.
Um dos principais objetivos da campanha em 2026 é arrecadar recursos para a construção e adequação de recintos destinados a onças que hoje vivem em cativeiro em espaços muito pequenos e distantes das condições necessárias para o seu bem-estar. Para um grande felino, espaço não é apenas uma questão de tamanho: significa a possibilidade de caminhar, explorar, escolher onde permanecer, interagir com diferentes elementos e receber estímulos físicos e comportamentais fundamentais para uma vida mais digna. Para animais que já perderam a possibilidade de voltar à natureza, oferecer condições adequadas é também uma forma de reparar, dentro do possível, parte dos impactos que sofreram.
Essa realidade faz parte da atuação da própria AMPARA. Atualmente, Guarani, Pitã e Leona, três onças-pardas que não podem retornar à natureza, vivem no Mantenedor de Fauna Silvestre apoiado pelo Instituto. Vítimas, direta ou indiretamente, da interferência humana, elas hoje contam com recintos de milhares de metros quadrados, vegetação e elementos naturais, além de acompanhamento veterinário, alimentação adequada, enriquecimento ambiental e uma rotina pensada para respeitar suas necessidades. Sem visitação pública, o espaço tem o bem-estar dos animais como prioridade. As três onças também podem ser apadrinhadas, contribuindo para a continuidade desses cuidados ao longo de suas vidas.
É esse olhar que queremos ampliar. Porque uma onça que não pode mais voltar para a natureza não deixa de ser uma onça. Ela continua precisando de espaço, estímulos, respeito e condições para expressar, tanto quanto possível, os comportamentos de sua espécie.
Os recursos arrecadados pela campanha ajudarão a transformar a realidade de outros animais que ainda não contam com essas condições, ao mesmo tempo em que fortalecem um movimento maior de conscientização sobre a proteção das onças-pardas e a necessidade de prevenir as ameaças que continuam levando esses animais ao resgate, ao cativeiro e à morte.
Porque, depois de dez anos trabalhando para transformar a realidade de onças que sofreram as consequências das nossas ações, queremos também ajudar a mudar as próximas histórias.
A onça-parda não precisa ser temida por tentar sobreviver em um território que transformamos. Ela precisa ser compreendida, respeitada e protegida.
Se fazemos parte do problema, também podemos fazer parte da mudança.
DOE. COMARTILHE. APOIE ESTA MUDANÇA DE CENÁRIO. Todos pelas Onças.



