Após alertas históricos em 1992 e 2017, cientistas voltam a chamar a atenção para a crise ambiental global. Sete dos nove limites planetários já foram ultrapassados, mas ainda existem caminhos para reduzir as pressões sobre o planeta e melhorar a vida das pessoas.
Este não é o primeiro aviso dos cientistas. Em 1992, cerca de 1.700 pesquisadores, incluindo a maioria dos vencedores do Prêmio Nobel vivos na época, alertaram que a humanidade estava em rota de colisão com a natureza.
Vinte e cinco anos depois, em 2017, mais de 15 mil cientistas voltaram a se manifestar. O recado era claro: a crise ambiental estava se agravando rapidamente.
Agora, em 2026, chega o terceiro aviso.
E, desta vez, a mensagem é ainda mais urgente: a emergência planetária já começou.
Um novo artigo, “World Scientists’ Warning to Humanity: A Third Notice”, conclui que a vida na Terra enfrenta uma emergência causada pelas crescentes pressões humanas e pela ultrapassagem de vários limites do planeta. O estudo está em processo de publicação na revista científica BioScience, da Oxford University Press.
Os autores mostram que mudanças climáticas, perda de biodiversidade, poluição, degradação das terras e esgotamento de recursos já estão alterando os sistemas naturais que garantem comida, água, saúde e estabilidade econômica para a sociedade.
E os impactos não são distribuídos igualmente: eles atingem com mais força justamente as populações que menos contribuíram para o problema.
O que são os limites planetários?
Para compreender a dimensão da crise, os pesquisadores utilizam o conceito de “limites planetários”.
Eles representam grandes processos da Terra que precisam permanecer dentro de determinadas faixas de segurança para que o planeta continue estável e capaz de sustentar a vida como conhecemos. Em termos simples, são nove:
- Clima: relacionado ao aquecimento provocado pela emissão de gases de efeito estufa.
- Biodiversidade: envolve a perda de espécies e os desequilíbrios provocados nos ecossistemas.
- Uso da terra: considera a conversão de florestas e outras áreas naturais em pastos, grandes monoculturas, cidades e infraestrutura.
- Água doce: representa a pressão exercida sobre rios, lagos e aquíferos.
- Ciclos de nutrientes: envolve principalmente o excesso de nitrogênio e fósforo proveniente de fertilizantes e dejetos.
- Acidificação dos oceanos: ocorre com o aumento da acidez da água do mar provocado pela absorção de dióxido de carbono.
- Entidades novas: considera o acúmulo de substâncias e materiais sintéticos no ambiente, como plásticos e produtos químicos industriais.
- Aerossóis atmosféricos: são partículas em suspensão no ar capazes de afetar tanto o clima quanto a saúde.
- Camada de ozônio: refere-se ao afinamento da camada que protege o planeta contra a radiação ultravioleta.
Sete dos nove limites já foram ultrapassados
Avaliações recentes indicam que a humanidade já ultrapassou sete dos nove limites planetários: clima, biodiversidade, uso da terra, água doce, ciclos de nutrientes, entidades novas e acidificação dos oceanos.
Esses sete limites estão em vermelho, indicando que vários sistemas essenciais de suporte à vida já estão sendo empurrados para fora da chamada “zona segura”.
Apenas dois ainda apresentam alguma margem, identificados em amarelo. Um deles é a camada de ozônio estratosférico, que apresenta sinais de recuperação graças ao Protocolo de Montreal, acordo internacional criado para reduzir substâncias responsáveis por sua destruição. O outro é a carga global de aerossóis, que vem diminuindo em alguns países.
Nem todas as notícias são ruins
Mesmo diante de um cenário tão preocupante, existem sinais de que mudanças são possíveis. Pela primeira vez em mais de um século, as fontes renováveis de energia superaram o carvão na geração elétrica global.
O marco indica que a transição energética já começou. O problema é que ela ainda acontece em uma velocidade inferior à necessária diante da dimensão da emergência atual.
E esse é um ponto importante: reconhecer a gravidade do cenário não significa afirmar que não há mais nada a ser feito. Pelo contrário.
Seis mudanças de rumo apontadas pelos cientistas
Os pesquisadores defendem seis grandes transformações:
- Abandonar rapidamente os combustíveis fósseis;
- Proteger e restaurar ecossistemas;
- Ajustar a economia aos limites do planeta;
- Reduzir o consumo exagerado das populações mais ricas;
- Transformar os sistemas alimentares;
- Fortalecer a justiça social, garantindo acesso universal à educação, saúde, moradia e serviços básicos.
Na prática, é preciso mudar o motor da crise. Isso significa diminuir as emissões de gases de efeito estufa, colocar a proteção e a restauração da natureza entre as maiores prioridades, respeitar os limites físicos do planeta e, ao mesmo tempo, promover políticas de justiça social que garantam acesso real a serviços básicos para todas as pessoas.
Essas ações não precisam ser vistas como objetivos separados. Segundo os cientistas, elas podem contribuir simultaneamente para estabilizar o clima e melhorar a qualidade de vida de bilhões de pessoas.
O terceiro aviso não pode ser ignorado
Em 1992, fomos alertados. Em 2017, os cientistas disseram que a situação estava piorando.
Em 2026, o terceiro aviso traz uma constatação ainda mais difícil de ignorar: não estamos nos aproximando de uma emergência planetária. Já vivemos dentro dela.
Ainda assim, a humanidade possui conhecimento e ferramentas suficientes para diminuir as pressões ambientais enquanto melhora a vida das pessoas. O que falta não é saber o que precisa ser feito. É escolher fazer.
E essas escolhas também passam pela política. Em um ano eleitoral, precisamos lembrar que o voto também é uma ferramenta de enfrentamento à crise climática. Escolher representantes comprometidos com a proteção da biodiversidade, a redução das emissões, a prevenção de desastres e a construção de políticas públicas baseadas na ciência é também uma forma de agir diante dessa emergência.
É por isso que, por meio da campanha Operação El Niño, o Instituto AMPARA Animal reforça a importância de compreender os impactos da crise climática e transformar informação em ação. Mudar a forma como produzimos, consumimos, ocupamos territórios e nos relacionamos com a natureza exige atitudes individuais, mas também decisões coletivas e políticas públicas capazes de responder à dimensão da crise que já vivemos.
O alerta já foi dado. Agora, precisamos transformar conhecimento em escolhas e escolhas em mudança.
Bibliografia
Planetary Boundaries Science (PBScience). 2025. Planetary Health Check 2025. Potsdam Institute for Climate Impact Research. (https://www.planetaryhealthcheck.org/)
Ripple, W. J. et al. World Scientists’ Warning to Humanity: A Third Notice. BioScience, in press. (https://scientistswarning.forestry.oregonstate.edu/sites/default/files/Third_Notice.pdf)
Rockström, J. et al. 2024. Planetary boundaries guide humanity’s future on Earth. Nature Reviews Earth & Environment 5: 773–788. (https://www.nature.com/articles/s43017-024-00597-z)
Texto de Filipe Reis, Coordenador de Biodiversidade do Instituto Ampara Animal



