A raiva é uma doença infecciosa viral aguda grave, que acomete mamíferos, inclusive o homem. E também, caracteriza-se como uma encefalite progressiva e aguda com letalidade de aproximadamente 100%. O vírus do gênero Lyssavirus, da família Rhabdoviridae, causa a doença.
Por se tratar de uma zoonose que afeta diretamente homens e animais, o contato entre os animais infectados e a população humana propicia a transmissão da doença, o que faz da raiva um grave problema de saúde pública.
Transmissão
A transmissão ocorre pela inoculação do vírus presente na saliva do mamífero infectado prioritariamente pela mordedura ou lambedura de mucosas. De modo geral, a transmissão envolve quatro ciclos epidemiológicos distintos. No ciclo aéreo, a transmissão ocorre entre morcegos. Já no ciclo silvestre, animais como macacos e raposas disseminam a doença entre si. Além disso, o ciclo urbano, com transmissão entre cães e gatos e o rural que envolve bovinos, bubalinos e equinos. A partir desses ciclos (Figura 1) a doença pode acometer os humanos.

Raiva em cães e gatos no Brasil
Cães são os principais reservatórios do vírus da raiva em áreas urbanas. Gatos, embora não sejam reservatórios, também podem transmitir o vírus, especialmente quando estão próximos a cães infectados. No Brasil, a raiva em cães e gatos causada por variantes típicas de cães (AgV1 e AgV2) foi drasticamente reduzida graças à vacinação em massa e ao controle de focos em todo o país. Por exemplo, o último caso de raiva em cão doméstico por AgV1 foi registrado em 2017, no Mato Grosso do Sul, e por AgV2 em 2019, no Maranhão. Em 2023, no entanto, foi confirmado um caso de raiva em cão no bairro Butantã, em São Paulo. Este, causado pela variante silvestre de morcego (AgV3), o que reforça a importância da vacinação contínua para cães e gatos.
No entanto, variantes silvestres do vírus ainda infectam cães e gatos quando morcegos, raposas ou outros mamíferos silvestres transmitem a doença. Por isso, é essencial manter as ações de prevenção e vigilância para evitar novos surtos.
Definição de raiva canina
No novo cenário que o Brasil se encontra, próximo a eliminação de raiva em cães domésticos. Assim, esclarecemos os conceitos técnicos utilizados na padronização da certificação junto à OPAS.
- Raiva canina: raiva da variante genética de cães.
- Raiva em cães: raiva de variantes genéticas de animais silvestres (distintas da raiva canina).
O Brasil reduziu os casos de raiva canina de 635, em 2002, para 9, em 2023; até 2024, o país registrou 8 casos, a maioria associada a variantes de animais silvestres.
Número de casos de raiva animal em cães e gatos, Brasil, 2002 a 2024*

Entre 2015 e 2024, o Brasil registrou 241 casos de raiva em cães e gatos, dos quais 77,2% (186 casos) ocorreram em cães domésticos. Sendo que, 74 casos de raiva canina variante típica de cães domésticos AgV1 e AgV2. Em 2015, 72 caninos (AgV1) originou uma epizootia na fronteira do Brasil com a Bolívia, que também resultou em um óbito humano em Corumbá e Ladário, Mato Grosso do Sul. Embora as autoridades tenham controlado essa epizootia, elas continuam monitorando a situação.
Os órgãos de saúde classificam os gatos domésticos como de alto risco para transmitir o vírus da raiva (RABV) de linhagem silvestre aos humanos. Principalmente devido ao seu comportamento predatório, que os expõe a morcegos. Apesar de estimativas indicarem uma grande população de gatos no Brasil, a subnotificação de casos suspeitos e as baixas taxas de vacinação felina em comparação aos cães são preocupantes.
Mesmo com a redução da raiva em cães e gatos, é crucial monitorar a circulação do vírus e identificar as variantes envolvidas em casos positivos, para que as medidas adequadas de controle e mitigação sejam implementadas. Em um cenário de baixa incidência, é importante qualificar as amostras enviadas para análise, priorizando animais com sinais neurológicos. Estes, que morreram durante o período de observação ou que foram encontrados mortos sem causa aparente. As amostras devem ser enviadas ao laboratório seguindo as orientações do Manual de Diagnóstico Laboratorial da Raiva.
Vacinação antirrábica canina e felina
O Programa Nacional de Profilaxia da Raiva (PNPR), criado em 1973, implantou a vacinação antirrábica canina e felina em todo o território nacional, entre outras ações. Com isso, foi uma das principais ferramentas para o decréscimo nos casos de raiva naqueles animais e, com isso, permitiu um controle da raiva urbana no país. Na série histórica de 1999 a 2024, o Brasil saiu de 1.200 para 8 casos no ano de 2024.
Cobertura vacinal de cães e gatos
Os estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul não realizam campanhas massivas de vacinação anual de cães e gatos desde 1995. O estado do Paraná manteve essas campanhas em municípios de fronteira com o Paraguai até 2015. Em 2021, o estado de São Paulo decidiu suspender as campanhas de vacinação, mantendo, no entanto, as demais atividades do Programa de Vigilância e Controle da Raiva no estado, conforme a Deliberação CIB nº 169, de 15 de dezembro de 2021.
As campanhas nacionais de vacinação contra a raiva em cães e gatos ocorrem anualmente em outras regiões do país. Entre 2012 e 2018, as coberturas vacinais em cães variaram em quase todos os municípios, com menos de 70% dos municípios alcançando a meta de vacinar 80% da população canina estimada em alguns anos. Esses resultados foram afetados por atrasos na entrega das vacinas pelo laboratório produtor e, ocasionalmente, por atrasos na programação das campanhas pelos estados. Em 2019, a campanha de vacinação antirrábica foi excepcionalmente restrita às áreas de maior risco para a raiva, abrangendo os estados do Nordeste do Brasil (Maranhão, Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte) e os estados que fazem fronteira com a Bolívia (Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Rondônia e Acre).
Atualmente, 23 Unidades Federadas realizam campanhas nacionais de vacinação contra a raiva em cães e gatos. Com base nesses dados, a cobertura vacinal no Brasil é de 60,4%.
Casos de Raiva Canina (RC) e Cobertura Vacinal (CV) na Campanha Nacional de Vacinação Contra a Raiva Canina, por ano Brasil, 2015 a 2024**

Raiva Humana
Desde os anos 2000 até janeiro de 2025, o perfil da raiva humana no Brasil mudou significativamente. As campanhas de controle da raiva em cães e a profilaxia antirrábica adequada para a população reduziram drasticamente os casos de raiva transmitida por cães, conhecidos como ciclo urbano da doença (Gráfico 1).
Os últimos casos de raiva em humanos transmitidos por cães ocorreram em 2013, no Maranhão, e em 2015, em Mato Grosso do Sul, ambos com variantes do vírus típicas de cães (AgV1/AgV2). Portanto, o Brasil está há quase 10 anos sem registros de raiva humana transmitida por cães, superando o prazo de 5 anos exigido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para declarar uma área livre de raiva.
A OMS estabeleceu 2030 como a meta para eliminar a raiva humana transmitida por cães nas Américas. No entanto, o Brasil assumiu o compromisso de atingir essa meta antes, durante a 17ª Reunião dos Diretores dos Programas de Raiva das Américas (17º REDIPRA) em Bogotá, Colômbia, em outubro de 2023. O objetivo é obter a validação de área livre de raiva canina pela OMS/OPAS até 2026.
Transmissão atual por morcegos
Apesar dos avanços no controle da raiva transmitida por cães, o Brasil enfrenta novos desafios. Hoje, com o aumento de casos de raiva humana causados por variantes do vírus rábico em animais silvestres, especialmente morcegos. Hoje, a transmissão por morcegos é a principal fonte de infecção da raiva em humanos no país.
Casos de Raiva humana segundo espécie animal de agressor, 1986-2024*, Brasil

Entre 2010 e 2025, foram registrados 50 casos de raiva humana no Brasil (Tabela 1). Desses, nove foram causados por mordidas de cães, 22 por morcegos, sete por primatas não humanos, dois por raposas, cinco por felinos, e um por bovino. Em quatro casos, não foi possível identificar o animal que provocou a agressão (Tabela 2). Na história dos casos de raiva humana no Brasil, apenas dois pacientes sobreviveram; todos os outros evoluíram para óbito (Tabela 3 e Tabela 4).
Os casos de animais positivos para raiva devem ser informados para as áreas competentes dos serviços de saúde municipais, para que seja realizada a busca por pessoas expostas e iniciadas as medidas profiláticas conforme a situação. As atividades de comunicação de risco devem ser realizadas de forma a ampliar a notificação de casos suspeitos e evitar o contato da população com os animais expostos ao vírus.
Os profissionais que atuam na vigilância da raiva devem ser submetidos à profilaxia pré-exposição e à titulação de anticorpos periodicamente, conforme recomendações do Ministério da Saúde.
Transmissão
Animais infectados transmitem a raiva ao homem por meio da saliva, principalmente pela mordedura, mas também pela arranhadura e/ou lambedura. O período de incubação é variável entre as espécies, desde dias até anos, com uma média de 45 dias no ser humano, podendo ser mais curto em crianças. O período de incubação está relacionado à localização, extensão e profundidade da mordedura, arranhadura, lambedura ou tipo de contato com a saliva do animal infectado; da proximidade da porta de entrada com o cérebro e troncos nervosos; concentração de partículas virais inoculadas e cepa viral.
Nos cães e gatos, a eliminação de vírus pela saliva ocorre de 2 a 5 dias antes do aparecimento dos sinais clínicos e persiste durante toda a evolução da doença (período de transmissibilidade). A morte do animal acontece, em média, entre 5 e 7 dias após a apresentação dos sintomas. Não se sabe ao certo qual o período de transmissibilidade do vírus em animais silvestres. Entretanto, sabe-se que os quirópteros (morcegos) podem albergar o vírus por longo período, sem sintomatologia aparente.
Veja como o Brasil tem lidado com outras doenças transmissíveis entre animais.
Sintomas
Após o período de incubação, surgem os sinais e sintomas clínicos inespecíficos (pródromos) da raiva, que duram em média de 2 a 10 dias. Nesse período, o paciente apresenta:
- Mal-estar geral;
- Pequeno aumento de temperatura;
- Anorexia;
- Cefaleia;
- Náuseas;
- Dor de garganta;
- Entorpecimento;
- Irritabilidade;
- Inquietude;
- Sensação de angústia.
Podem ocorrer linfoadenopatia, hiperestesia e parestesia no trajeto de nervos periféricos, próximos ao local da mordedura, e alterações de comportamento.
Complicações
A infecção da raiva progride, surgindo manifestações mais graves e complicadas, como:
- Ansiedade e hiperexcitabilidade crescentes;
- Febre;
- Delírios;
- Espasmos musculares involuntários, generalizados,e/ou convulsões.
Espasmos dos músculos da laringe, faringe e língua ocorrem quando o paciente vê ou tenta ingerir líquido, apresentando sialorreia intensa (“hidrofobia”). Os espasmos musculares evoluem para um quadro de paralisia, levando a alterações cardiorrespiratórias, retenção urinária e obstipação intestinal. Observa-se, ainda, a presença de disfagia, aerofobia, hiperacusia e fotofobia.
Importante: O paciente se mantém consciente, com período de alucinações, até a instalação de quadro comatoso e a evolução para óbito. O período de evolução do quadro clínico, depois de instalados os sinais e sintomas até o óbito, é, em geral, de 2 a 7 dias.
Diagnóstico e Tratamento
A confirmação laboratorial em vida, ou seja, o diagnóstico dos casos de raiva humana, pode ser realizada pelo método de imunofluorescência direta, em impressão de córnea, raspado de mucosa lingual ou por biópsia de pele da região cervical (tecido bulbar de folículos pilosos).
A sensibilidade dessas provas é limitada e, quando negativas, não se pode excluir a possibilidade de infecção. A realização da autópsia é de extrema importância para a confirmação diagnóstica.
Diagnóstico diferencial
Não existem dificuldades para estabelecer o diagnóstico quando o quadro clínico vier acompanhado de sinais e sintomas característicos da raiva, precedidos por mordedura, arranhadura ou lambedura de mucosas provocadas por animal raivoso ou suspeito. Esse quadro clínico típico ocorre em cerca de 80% dos pacientes.
No caso da raiva humana transmitida por morcegos hematófagos, cuja forma é predominantemente paralítica, o diagnóstico é incerto e a suspeita recai em outros agravos que podem ser confundidos com raiva humana. Nesses casos, o diagnóstico diferencial deve ser realizado com: tétano; síndrome de Guillain-Barré, pasteurelose, por mordedura de gato e de cão; infecção por vírus B (Herpesvirus simiae), por mordedura de macaco; botulismo e febre por mordida de rato (Sodóku); febre por arranhadura de gato (linforreticulose benigna de inoculação); encefalite pós-vacinal; quadros psiquiátricos; outras encefalites virais, especialmente as causadas por outros rabdovírus; e tularemia.
Outras Condições Associadas e Avaliação Clínica
Cabe salientar a ocorrência de outras encefalites por arbovírus e intoxicações por mercúrio, principalmente na região Amazônica, apresentando quadro de encefalite compatível com o da raiva. É importante ressaltar que o profissional de saúde deve realizar a anamnese do paciente junto ao acompanhante e documentá-la adequadamente, destacando sintomas inespecíficos, antecedentes epidemiológicos e situação vacinal. No exame físico, frente à suspeita clínica, observar atentamente o fácies, presença de hiperacusia, hiperosmia, fotofobia, aerofobia, hidrofobia, relatos de dores na garganta, dificuldade de deglutição, dores nos membros inferiores, e alterações do comportamento.
Ou seja, a raiva é uma doença quase sempre fatal, para a qual a melhor medida de prevenção é a vacinação pré ou pós exposição. Quando a profilaxia antirrábica não ocorre em tempo oportuno e a doença se instala, pode-se utilizar o Protocolo de Tratamento da Raiva Humana, baseado na indução de coma profundo, uso de antivirais e outros medicamentos específicos. Entretanto, é importante salientar que, diante de uma doença em que letalidade é de quase 100%, os pacientes, mesmo submetidos ao protocolo, raramente sobrevivem, ressaltando a importância da prevenção.
Prevenção

Os serviços de saúde devem indicar a profilaxia pré-exposição às pessoas com risco permanente de exposição ao vírus da raiva durante atividades ocupacionais, como as exercidas por:
- Médicos Veterinários; biólogos; profissionais de laboratório de virologia e anatomopatologia para raiva; estudantes de Medicina Veterinária, zootecnia, biologia, agronomia, agrotécnica e áreas afins;
- Pessoas que atuam na captura, contenção, manejo, coleta de amostras, vacinação, pesquisas, investigações ecopidemiológicas, identificação e classificação de mamíferos: os domésticos (cão e gato) e/ou de produção (bovídeos, equídeos, caprinos, ovinos e suínos), animais silvestres de vida livre ou de cativeiro, inclusive funcionário de zoológicos;
- Espeleólogos, guias de ecoturismo, pescadores e outros profissionais que trabalham em áreas de risco. Profissionais de saúde devem avaliar individualmente as pessoas com risco de exposição ocasional ao vírus, como turistas que viajam para áreas com raiva não controlada.Assim, podendo receber a profilaxia pré-exposição dependendo do risco a que estarão expostos durante a viagem. A profilaxia pré-exposição apresenta as seguintes vantagens;
- Simplifica a terapia pós-exposição, eliminando a necessidade de imunização passiva (soro ou imunoglobulina), e diminui o número de doses da vacina;
- Desencadeia resposta imune secundária mais rápida (booster), quando iniciada a pós-exposição.
Em caso de título insatisfatório, aplicar uma dose de reforço e reavaliar a partir do 14º dia após o reforço.
Importante: A vacinação anual de cães e gatos é eficaz na prevenção da raiva nesses animais, o que consequentemente previne também a raiva humana. Portanto, deve-se sempre evitar de se aproximar de cães e gatos sem donos, não mexer ou tocá-los quando estiverem se alimentando, com crias ou mesmo dormindo. Nunca tocar em morcegos ou outros animais silvestres diretamente. Principalmente quando estiverem caídos no chão ou encontrados em situações não habituais.
Entenda outras zoonoses que também exigem atenção dos tutores.
O que fazer após a exposição?
Por fim, em caso de agressão por animal, a pessoa deve procurar assistência médica o mais rápido possível. Quanto ao ferimento, deve-se lavar abundantemente com água e sabão, o mais rápido possível, e aplicar produto antisséptico.
A limpeza deve ser cuidadosa, visando eliminar as sujidades sem agravar o ferimento. Em seguida, recomenda-se utilizar antissépticos como polivinilpirrolidona-iodo, povidine, digluconato de clorexidina ou álcool iodado.
Texto: Dra. Paula Penido – AMPARA Ciência e Educação



