Operação El Niño: O mundo já está sentindo os efeitos dos eventos climáticos extremos. O Brasil está preparado?

Operação El Niño Silvestres
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Enquanto você lê este texto, mais de 1,2 milhão de hectares de floresta queimaram no Canadá em apenas uma semana. Nos Estados Unidos, a temporada de incêndios começou com uma intensidade que não era registrada há quase duas décadas, além das enchentes que fizeram atingiram incontáveis animais, como cervos flagrados sendo arrastados pelas corredeiras. Na Europa, incêndios florestais avançam simultaneamente à seca prolongada em alguns países, enquanto outros enfrentam tempestades severas, enchentes e ondas de calor responsáveis por milhares de mortes. Na China, enchentes provocadas por um tufão deixaram milhares de pessoas desabrigadas, centenas de animais silvestres em criadouros em fuga e dezenas de animais mantidos em cativeiro mortos ou desaparecidos.

São notícias que se repetem diariamente. Mudam os países, biomas, espécies. Mas a mensagem é sempre a mesma: os eventos climáticos extremos deixaram de ser exceção. Eles fazem parte da realidade.

À primeira vista, tudo isso pode parecer distante da nossa rotina. Mas não está. O Brasil também vive um momento de grande vulnerabilidade climática. As projeções para os próximos meses indicam alta probabilidade de um El Niño forte ou muito forte, fenômeno capaz de intensificar secas, queimadas, ondas de calor, tempestades e enchentes em diferentes regiões do país.

Estamos preparados?

Não é apenas sobre o clima. É sobre o futuro das nossas cidades, da biodiversidade e da nossa própria saúde.

Durante muito tempo, enxergamos secas, enchentes, ondas de calor e incêndios florestais como acontecimentos isolados ou “desastres naturais”. Mas essa realidade mudou.

As mudanças climáticas estão tornando esses eventos cada vez mais frequentes, intensos e imprevisíveis. E, quando fenômenos naturais como o El Niño ocorrem em um planeta mais quente e com ecossistemas degradados, seus impactos tendem a ser ainda mais severos.

No Brasil, um El Niño forte pode significar meses de seca extrema em algumas regiões, como na Amazônia, aumento expressivo do risco de incêndios florestais, como no Pantanal e centro-oeste do país, ondas de calor mais prolongadas, redução da disponibilidade de água, prejuízos para a agricultura, além de chuvas intensas, enchentes e deslizamentos em outras partes do país, como vimos no Rio Grande do Sul em 2024.

Os impactos não param por aí.

Eles comprometem a produção de alimentos, pressionam os sistemas de saúde, provocam perdas econômicas, deslocam comunidades, aumentam a insegurança hídrica e afetam diretamente a qualidade de vida da população.

Mas existe uma consequência que ainda recebe pouca atenção: a biodiversidade.

Cada seca prolongada reduz rios, lagoas e nascentes utilizados por inúmeras espécies. Incêndios destroem habitats inteiros em poucas horas. Cada enchente modifica paisagens, destrói ninhos, inunda tocas e força animais a buscarem abrigo em áreas urbanas, aumentando conflitos com pessoas, atropelamentos e outros riscos.

Quando uma floresta perde sua capacidade de sustentar a vida, não são apenas os animais que sofrem. Perdem também as cidades, que ficam mais vulneráveis às enchentes, às ilhas de calor, à escassez de água e à perda dos inúmeros serviços ambientais que a natureza presta gratuitamente todos os dias.

É por isso que falar sobre eventos climáticos extremos não é falar apenas sobre previsão do tempo.

É falar sobre planejamento, conservação da natureza, adaptação às mudanças climáticas e, principalmente, sobre como queremos enfrentar um futuro em que esses eventos deixarão de ser exceção para se tornarem parte da nossa realidade.

O problema não é apenas o evento extremo.

Eventos climáticos sempre fizeram parte da história do planeta. Assim como o El Niño.

O que mudou foi a intensidade, a frequência e a capacidade que temos de enfrentá-los. Hoje, esses fenômenos acontecem sobre um cenário de degradação ambiental sem precedentes.

Florestas cada vez mais fragmentadas, nascentes e manguezais degradados, áreas úmidas aterradas, corredores ecológicos interrompidos, espécies já ameaçadas de extinção.

Quando retiramos a vegetação nativa, ocupamos áreas de risco e reduzimos os ecossistemas naturais, também reduzimos a capacidade da natureza de amortecer os impactos das chuvas intensas, das secas e das ondas de calor.

Ao mesmo tempo, propostas que enfraquecem a proteção ambiental tornam esses ecossistemas ainda mais vulneráveis justamente no momento em que eles são mais necessários.

Proteger a natureza nunca foi apenas uma questão de conservar espécies. É uma estratégia de adaptação climática.

A prevenção precisa olhar para além das pessoas. Precisa olhar para a natureza.

Quando um município elabora um plano para enfrentar enchentes, secas ou incêndios florestais, é natural que a prioridade seja proteger vidas humanas e a infraestrutura das cidades. Mas é preciso olhar também para a proteção da biodiversidade.

Durante eventos extremos, animais domésticos e silvestres também precisam de atendimento, resgate, deslocamento e reabilitação. Centros de triagem e hospitais veterinários podem ficar sobrecarregados ou serrem atingidos. Áreas naturais exigem monitoramento constante para evitar incêndios e identificar animais feridos. Corredores ecológicos tornam-se fundamentais para que as espécies consigam se deslocar em busca de alimento e abrigo.

Ainda assim, a fauna raramente aparece como prioridade nos planos de prevenção e resposta a desastres.

Essa é uma realidade que precisa mudar. Não apenas porque proteger os animais é uma responsabilidade ética. Mas porque proteger a biodiversidade significa preservar o funcionamento dos ecossistemas que tornam nossas próprias cidades mais seguras e resilientes.

Conservar a natureza também é uma forma de prevenir desastres.

Existe uma ideia equivocada de que a conservação ambiental e o desenvolvimento caminham em direções opostas.Na prática, acontece justamente o contrário:

  • Florestas preservadas reduzem a temperatura local e ajudam a regular o clima.
  • Nascentes protegidas garantem o abastecimento de água mesmo durante períodos de seca.
  • Áreas úmidas funcionam como barreiras naturais contra enchentes.
  • Manguezais reduzem a força das marés e das tempestades costeiras.
  • Vegetação nativa estabiliza encostas e diminui o risco de deslizamentos.

Esses ambientes prestam serviços ambientais que dificilmente poderiam ser substituídos por infraestrutura construída. São soluções baseadas na própria natureza.

Por isso, enfraquecer leis ambientais, reduzir áreas protegidas ou permitir a degradação de ecossistemas justamente em um cenário de aumento dos eventos extremos significa reduzir uma das nossas principais formas de adaptação às mudanças climáticas.

Investir em conservação deixou de ser apenas uma estratégia para proteger espécies ameaçadas. Hoje, é também uma política de prevenção de riscos e de proteção das pessoas.

O que podemos cobrar dos nossos municípios?

A adaptação às mudanças climáticas não depende apenas de ações individuais. Ela exige planejamento e políticas públicas.

Cada município possui desafios diferentes, mas algumas perguntas deveriam fazer parte da rotina de toda população.

  • Existe um plano municipal de prevenção e mitigação de riscos climáticos?
  • As áreas mais vulneráveis a enchentes, deslizamentos e incêndios estão mapeadas?
  • Há investimentos em prevenção ou apenas respostas às emergências?
  • Os rios, nascentes, áreas úmidas e fragmentos de vegetação estão sendo protegidos?
  • Existem brigadas treinadas para incêndios florestais?
  • Há protocolos para resgate e atendimento de animais durante desastres?
  • Os órgãos ambientais, a Defesa Civil e os serviços veterinários trabalham de forma integrada?

Essas perguntas não devem surgir apenas quando a tragédia acontece. Precisam fazer parte do debate público durante todo o ano.

Afinal, prevenir custa muito menos (em recursos, biodiversidade e vidas) do que reconstruir.

Toda pessoa pode fazer parte da prevenção.

Cada cidadão também possui um papel importante na construção de comunidades mais preparadas.

  • Informar-se sobre os riscos climáticos da sua região.
  • Conhecer os canais oficiais de alerta.
  • Evitar queimadas e qualquer prática que possa provocar incêndios.
  • Proteger nascentes, áreas verdes e fragmentos naturais.
  • Preparar um plano de emergência para sua família e seus animais.
  • Apoiar iniciativas de conservação e cobrar políticas públicas voltadas à adaptação climática.

Pequenas atitudes individuais nunca substituem ações governamentais. Mas elas fortalecem uma cultura de prevenção que faz toda a diferença quando os eventos extremos acontecem.

A Operação El Niño nasceu para transformar informação em prevenção.

Os eventos climáticos extremos já deixaram de ser uma possibilidade distante. Eles fazem parte do presente.

A grande questão é como decidiremos enfrentá-los. Esperaremos pela próxima tragédia para agir? Ou construiremos, desde já, cidades mais preparadas, ecossistemas mais protegidos e uma sociedade mais consciente?

Foi para contribuir com essa mudança que nasceu a Operação El Niño. Ao longo da campanha, vamos compartilhar informações sobre os impactos dos eventos climáticos extremos na biodiversidade, orientações para proteger animais domésticos e silvestres, materiais educativos, conteúdos sobre prevenção e adaptação climática, além de mostrar como cada cidadão pode cobrar medidas efetivas de preparação em seu município.

Porque informação também salva vidas, planejamento reduz impactos, conservar a natureza aumenta nossa capacidade de enfrentar um futuro cada vez mais desafiador e proteger a biodiversidade nunca foi apenas uma questão de proteger espécies.

É proteger a água que bebemos, o ar que respiramos, os alimentos que chegam à nossa mesa, a estabilidade do clima. E, acima de tudo, a nossa própria capacidade de viver em um planeta cada vez mais sujeito aos extremos.

A crise climática já começou. Agora, cabe a todos nós decidir se continuaremos apenas assistindo às manchetes ou se transformaremos conhecimento em ação.

Instituto Ampara Animal

Somos uma ONG sem fins lucrativos, fundada e liderada por mulheres em 2010. Hoje, temos o titulo de OSCIP, reconhecendo nossa transparência e nos tornamos a maior organização de proteção e defesa animal do país, entre as 100 melhores ONGs do Brasil. Nosso propósito é transformar a sociedade por meio de ações de advocacy, educação e conscientização sobre os direitos dos animais.

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