Uma capivara espancada por várias pessoas. A cena chocou o país. A indignação é legítima e necessária. Mas ela também revela algo maior: esse não é um caso isolado.
A violência contra animais silvestres acontece todos os dias no Brasil. E, na maioria das vezes, fica impune.
Por que estamos vendo mais animais silvestres nas cidades?
A presença de capivaras e tantas outras espécies em ambientes urbanos, periurbanos e rurais não é coincidência.
Esses animais estão cada vez mais próximos por dois motivos principais: a perda de habitat natural e a adaptação a ambientes modificados pelo ser humano.
Áreas verdes urbanas, margens de rios, parques e represas, grandes plantações e outras áreas com qualquer tipo de vegetação acabam se tornando refúgios possíveis, muitas vezes os únicos.
Ou seja: eles não estão invadindo. Nós é que expandimos nossas cidades sobre territórios que antes eram deles.
Esse é um ponto fundamental para entender o contexto e também para evitar respostas baseadas em medo, desinformação ou violência.
Quando o conflito vira crueldade
A capivara agredida não representa apenas um caso de violência extrema. Ela representa um padrão. E outros episódios recentes reforçam isso:
- uma onça-parda morta e sua morte é comemorada pela atiradora — com multa de apenas R$ 2 mil
- um tamanduá-mirim espancado em uma estrada — com termo circunstanciado
- traficantes reincidentes de animais silvestres — que seguem sendo presos e soltos
Casos diferentes, mesma lógica: a violência se repete porque não há consequência real.
A impunidade como regra
Hoje, os crimes contra a fauna silvestre ainda são tratados como de menor gravidade pela legislação brasileira. Na prática, isso significa:
- maus-tratos contra animais silvestres (art. 32): pena de 3 meses a 1 ano + multa
- tráfico de animais silvestres (art. 29): pena de 6 meses a 1 ano + multa
Além disso, o tráfico nem sequer possui um tipo penal específico.
Como essas penas são baixas, esses crimes são enquadrados como de menor potencial ofensivo.
O resultado?
- acordos judiciais
- prestação de serviços
- pagamento de multas
- e raramente prisão
A mensagem que fica é clara: o risco é baixo e o crime compensa.
Abril Laranja: enxergar o que foi normalizado
O caso da capivara ganha ainda mais luz em um mês simbólico: o Abril Laranja. A campanha chama atenção para os maus-tratos contra animais, inclusive aqueles que não ganham tanta visibilidade.
E a fauna silvestre está no centro desse problema. Porque, além da violência direta, existe também a violência estrutural:
- tráfico de animais
- caça
- perda de habitat
- violência
- conflitos urbanos
- negligência e desinformação
Tudo isso compõe um cenário onde a vida silvestre segue sendo tratada como descartável.
O que precisa mudar: o PL dos Silvestres
Diante desse cenário, cresce a urgência de atualizar a legislação brasileira. Assim, o PL dos Silvestres (PL 5809/2025) propõe mudanças importantes:
- aumento das penas para maus-tratos (de 2 a 5 anos de reclusão)
- criação de um tipo penal específico para o tráfico de animais silvestres
- agravantes que podem elevar a pena para até 8 anos (em casos de morte, lucro, violência ou espécies ameaçadas)
- fim do enquadramento como crime de menor potencial ofensivo
Na prática, isso significa:
- mais investigação
- mais responsabilização
- mais chances reais de punição
E, principalmente, um recado claro: crimes contra a fauna não são toleráveis.
Sem consequência, o crime continua
A violência contra animais silvestres não é apenas um problema individual. Ou seja, ela impacta ecossistemas inteiros, compromete a biodiversidade e afeta diretamente o equilíbrio ambiental.
E enquanto não houver consequência proporcional, esses crimes continuarão acontecendo. Porque a impunidade não só permite, ela incentiva.
Um chamado à ação
Por fim, o caso da capivara e de qualquer outro que envolva animais silvestres vítimas da violência humana precisam ser mais do que uma notícia que gera revolta. Precisa ser um ponto de virada.
O PL dos Silvestres precisa avançar no Senado. Você pode fazer parte disso:
- cobre posicionamento de representantes
- pressione pela aprovação do projeto
- compartilhe informação de qualidade
Proteger a fauna silvestre é proteger a vida. Portanto, isso também significa exigir justiça e leis que representem a devida seriedade e urgência.



