Por séculos, tigres e onças-pintadas foram vistos como ameaças. Predadores poderosos, difíceis de avistar e temidos por comunidades locais, eles foram perseguidos por medo, preconceito, status e lucro.
Tigres: da beira da extinção à recuperação
Na Ásia, os tigres sofreram uma das caçadas mais intensas da história. Sua pele e ossos eram comercializados para fins medicinais sem comprovação científica, enquanto os conflitos com comunidades humanas aumentavam com a perda de habitat. Por muito tempo, prevaleceu a imagem do “tigre matador”.

Mesmo em um cenário de alta densidade populacional e grandes pressões humanas, a Índia conseguiu reverter a situação: nas últimas duas décadas, a ocupação dos tigres aumentou 30%, cerca de 2.929 km² por ano, resultando na maior população global, distribuída por aproximadamente 138.200 km². Os tigres se mantêm em áreas protegidas livres de humanos (35.255 km²), mas também ocupam habitats compartilhados com cerca de 60 milhões de pessoas. A ausência ou extinção esteve ligada a conflitos armados, pobreza e mudanças extensas no uso da terra.
Esse caso mostra que, mesmo em regiões com cenários aparentemente mais desafiadores que o Brasil, é possível reverter a perda de megafauna quando há estabilidade política, engajamento comunitário e políticas de conservação efetivas (Science, 2025).
Onças-pintadas: um futuro em risco
No Brasil, a situação é delicada. As onças-pintadas ainda sofrem com a caça ilegal, motivada por ataques a animais de criação, medo e preconceito e tráfico de partes. Com o avanço da ocupação humana, os encontros com onças se tornam mais frequentes — e os conflitos, mais intensos. Além disso, ainda é preciso avançar no mapeamento de populações desse grande felino, principalmente se queremos entender mais sobre aumento ou declínio populacional.

Apesar disso, a ciência mostra que a coexistência é possível. O Guia de Coexistência entre Humanos e Onças-pintadas (WWF e Onças do Iguaçu, 2018) recomenda medidas simples e eficazes, como:
- manter currais fechados à noite,
- adotar iluminação adequada,
- investir em educação ambiental.
E já existem sinais de esperança. Graças à colaboração transfronteiriça, o número de onças-pintadas no Corredor Verde Brasil-Argentina mais que duplicou nos últimos 13 anos, alcançando 93 indivíduos na região do Iguaçu-Iguazú. Assim, esse é um exemplo de que, quando há cooperação e comprometimento, a recuperação é possível.
O que precisamos aprender com essa história?
A coexistência começa com o reconhecimento de que a vida selvagem não é inimiga, mas parte do ecossistema em que sustenta a nossa sociedade está inserido. Se conseguimos mudar a relação com os tigres, também podemos fazer o mesmo com as onças. Basta querer e agir.A luta contra a caça é também a luta pelo equilíbrio dos ecossistemas. E quanto antes agirmos, maiores são as chances de garantir a sobrevivência desses felinos incríveis.
Movimento Todos Contra A Caça
A luta contra a caça de animais silvestres no Brasil é uma prioridade para o Instituto Ampara Animal. Dessa forma, fazemos parte de um conglomerado de organizações e instituições que atuam em defesa da fauna e já mobilizaram mais de um milhão de pessoas em prol dessa causa.
Fazemos parte de uma petição contra mais de 12 projetos de lei pró-caça, com cerca de 1.5 milhão de assinaturas Além disso, em 2023, quando um crime brutal envolvendo uma mãe e dois filhotes de onças-pintadas ganhou grande repercussão nas redes sociais, lançamos uma petição exigindo aumento da pena para crimes contra grandes felinos no país, dando andamento ao PL 968/2022, que já conta com mais de 100 mil assinaturas: Assine a petição aqui.

No Brasil, a legislação atual prevê punições para a caça de animais silvestres, mas as penas raramente resultam em prisão efetiva, incentivando a perpetuação da caça ilegal. É preciso alterar a lei para que crimes contra essas espécies tenham penas mais rigorosas, garantindo que os responsáveis sejam realmente responsabilizados e que haja a coibição desse tipo de atrocidade.
Essa pauta é fundamental: assim como aprendemos com o exemplo dos tigres na Índia, é possível reverter o declínio de espécies ameaçadas quando há mobilização social, fiscalização eficiente e políticas públicas efetivas. Por isso, apoiar campanhas, pressionar autoridades e promover conscientização é essencial para que as onças-pintadas e outros grandes felinos tenham um futuro seguro.
Texto escrito por Filipe Reis, Coordenador de Biodiversidade do Instituto Ampara Animal.
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