Somente entre agosto e setembro, mais de 2 mil animais silvestres foram resgatados em operações noticiadas pelo país. Com a chegada do período reprodutivo de muitas espécies, especialmente aves, a primavera também acende um alerta para o tráfico de fauna.
A primavera costuma ser associada ao florescimento, ao aumento das temperaturas e à renovação da vida. E, para a fauna, esse é realmente um período de intensa atividade.
Com maior disponibilidade de recursos e condições ambientais favoráveis, muitas espécies entram em seu período reprodutivo. Aves constroem ninhos, ovos eclodem, filhotes nascem e uma nova geração começa seus primeiros dias de vida.
Mas é justamente nesse momento tão importante para a continuidade das espécies que muitos animais também se tornam mais vulneráveis à captura.
(Muito) Mais de dois mil animais em apenas dois meses
Operações divulgadas em diferentes regiões brasileiras já registraram o resgate ou a apreensão de mais de mil e quinhentos animais silvestres.
Em agosto, por exemplo, a Polícia Rodoviária Federal resgatou 584 animais em uma única ocorrência em Pernambuco, entre eles 555 aves e 29 jabutis. No Tocantins, outra operação encontrou 412 animais dentro de um veículo, incluindo 396 aves e 16 primatas, mantidos em condições inadequadas.
Em setembro, uma operação do Ibama apreendeu 510 aves silvestres em Pernambuco. No mesmo mês, a Operação Sumaúma II, realizada em nove estados, registrou o resgate de outros 267 animais, dos quais 140 eram papagaios. Em outra ocorrência na Bahia, 37 aves foram encontradas sendo transportadas irregularmente, incluindo 28 filhotes de papagaio.

Contudo, o que vemos é apenas a ponta do iceberg. E esses números representam apenas os casos que chegaram às autoridades e foram divulgados: registros encontrados em notícias representam somente uma parcela das apreensões. Esses dados devem ser entendidos como um número mínimo diante da dimensão real do problema.
Primavera: quando novos filhotes também se tornam alvo
A relação entre o período reprodutivo e o tráfico é especialmente preocupante para as aves.
Órgãos ambientais já alertaram que, durante a reprodução de grupos como papagaios, araras e periquitos, filhotes podem ser retirados diretamente dos ninhos para abastecer o comércio clandestino.
São animais que muitas vezes ainda dependem completamente dos pais para alimentação, proteção e aprendizado. Dessa forma, a captura interrompe esse ciclo. Filhotes são separados de seus pais, ninhos são violados e animais são submetidos a transporte, confinamento e condições incompatíveis com suas necessidades. Em uma das apreensões realizadas em setembro, por exemplo, 28 filhotes de papagaio eram transportados em caixas de papelão, sem alimentação, viajando por muitos quilómetros, embaixo de sol.
Beleza, canto e a possibilidade de mantê-las como animais de companhia estão entre os fatores que tornam esse grupo particularmente visado.
Quando um animal é retirado, a natureza também perde
O impacto do tráfico não termina no sofrimento do indivíduo capturado.
Um animal silvestre faz parte de uma rede de relações. Aves dispersam sementes e contribuem para a regeneração da vegetação. Outras espécies atuam como polinizadoras, predadoras, presas ou participam de diferentes processos ecológicos. Quando indivíduos são retirados repetidamente de uma população, não perdemos apenas animais: interferimos também nas relações das quais eles fazem parte.
Além disso, a captura pode retirar justamente indivíduos em idade reprodutiva ou impedir que filhotes cheguem à fase adulta e se reproduzam, adicionando mais uma pressão sobre populações que muitas vezes já enfrentam perda e fragmentação de habitat, incêndios, atropelamentos e outras interferências humanas.
Cada animal silvestre tem uma história individual. Mas também ocupa um lugar dentro de uma história muito maior: a do ecossistema ao qual pertence.
E para o animal, uma gaiola nunca substitui a natureza
Existe ainda uma dimensão que não pode ser esquecida: o bem-estar de cada indivíduo.
Animais silvestres não passaram pelo mesmo processo de domesticação de cães e gatos. Suas necessidades físicas e comportamentais estão relacionadas à vida para a qual evoluíram. Voar. Escalar. Explorar. Forragear. Procurar abrigo. Escolher parceiros. Conviver com outros indivíduos. Estabelecer territórios. Fugir de ameaças. Tomar decisões.
Quando transformamos esses animais em pets, toda essa complexidade corre o risco de ser reduzida ao espaço de uma gaiola, viveiro ou residência. Mesmo quando existe alimento, abrigo e afeto humano, isso não significa necessariamente que todas as necessidades comportamentais daquele animal possam ser atendidas.
Por isso, para o Instituto AMPARA Animal, a discussão sobre animais silvestres como pets não termina na distinção entre comércio legal e ilegal. Ela também é uma discussão ética.
Legalizado não significa que precisamos normalizar
A existência de um comércio autorizado não elimina uma pergunta fundamental: por que ainda desejamos possuir animais que nasceram para ser silvestres?
Quando papagaios, macacos, répteis e outros animais aparecem repetidamente dentro de casas, interagindo com pessoas como animais domésticos, essas imagens podem contribuir para tornar sua posse familiar, desejável e aparentemente inofensiva.
E essa exposição hoje encontra um amplificador poderoso: as redes sociais. O próprio Ibama já alertou que a exposição reiterada de animais silvestres nas redes pode estimular a percepção de que sua posse é aceitável e alimentar o desejo de adquirir esses animais.
Alguns estudos publicados, relatam a influencia direta das mídias no desejo de compra (consulte a bibliografia disponível abaixo).
Quando a presença desses animais dentro de casas é normalizada, aumenta-se a visibilidade de uma cultura de posse que não distingue necessariamente, aos olhos de quem assiste, qual animal veio de uma origem autorizada e qual foi retirado ilegalmente da natureza.
E a fronteira pode ser explorada criminosamente. Em 2026, uma investigação da Polícia Federal identificou a oferta de animais silvestres acompanhados de documentos falsos — incluindo notas fiscais, certificados de origem e anilhas — utilizados para dar aparência de legalidade a espécimes provenientes do tráfico.
Antes da compra, existe o desejo
É por isso que o combate ao tráfico não pode começar apenas quando um carro cheio de gaiolas é parado em uma rodovia.
Precisamos olhar para o que acontece antes. Para o vídeo “fofo” que transforma um animal silvestre em objeto de desejo, o influenciador que apresenta uma espécie como companhia, a publicidade que utiliza animais silvestres de forma humanizada ou domesticada. Para a postagem que faz alguém pensar: “eu também queria ter um desses.”
A campanha Algoritmo Selvagem lançada em 2024 pelo Instituto fala exatamente sobre isso. Além de informação, a campanha também traz um passo a passo de como podemos limpar o nosso algoritmo, para que conteúdos de animais silvestres como pets, humanizados ou em interação deixem de aparecer no seu feed, e com isso, alcancem menos pessoas. É você contribuindo para educar o algoritmo!
As plataformas digitais também se tornaram espaços utilizados diretamente para o comércio ilegal. Dessa forma, pesquisa sobre tráfico de fauna pelas redes sociais no Brasil identificou anúncios de aves e répteis brasileiros em redes e serviços de mensagens, reforçando a importância de reduzir a demanda e de envolver também as plataformas no enfrentamento desse crime.
Uma revisão científica publicada em 2026 na Nature Reviews Biodiversity aponta a demanda persistente dos consumidores como um dos principais fatores que sustentam o comércio ilegal de fauna nos ambientes digitais, ao lado da baixa percepção de risco, do anonimato e de fragilidades na governança das plataformas.
Porque existe uma verdade que precisamos repetir: o tráfico só existe porque existe quem compra.
O que cada pessoa pode fazer?
Combater o tráfico de animais silvestres também depende das escolhas que fazemos antes que um crime aconteça.
- Não compre animais silvestres. Não transforme a posse de uma espécie em desejo apenas porque ela apareceu em um vídeo, perfil ou publicidade.
- Não incentive conteúdos que romantizam animais silvestres como pets. Curtidas, comentários e compartilhamentos ajudam conteúdos a ganhar alcance e podem contribuir para normalizar aquilo que estamos tentando combater.
- Não tente “salvar” um animal comprando-o. A compra mantém a demanda e sinaliza ao vendedor que existe mercado para novos indivíduos.
- Diante da suspeita de comércio ilegal, denuncie aos órgãos competentes. Informações como perfil, anúncio, localização, imagens e outros registros podem ajudar na apuração, desde que obtidos sem colocar sua segurança em risco.
- Valorize animais silvestres onde eles pertencem: na natureza. Observe aves, visite áreas naturais, participe de iniciativas de ciência cidadã, apoie projetos de conservação e ensine crianças a admirar a fauna sem associar amor à posse.
Nesta primavera, deixe a vida permanecer onde nasceu
A primavera deveria ser o momento em que novos indivíduos chegam para renovar populações e continuar ciclos construídos ao longo de milhares de anos.
Um filhote de papagaio não nasce para uma gaiola. Uma ave não constrói um ninho para que seus filhotes sejam vendidos. Um animal silvestre não precisa pertencer a alguém para ser amado e protegido.
Assim, proteger a biodiversidade brasileira também significa transformar nossa relação com ela: trocar a posse pela contemplação, o desejo de ter pelo compromisso de proteger e a gaiola pela liberdade.
Nesta primavera, deixe os ninhos cheios, os filhotes com seus pais, a vida seguir seu ciclo.
Por fim, não podemos esquecer: o tráfico só existe porque existe quem compra.
Silvestre não é pet.
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