Fauna silvestre não é mercadoria: por que combater a demanda é essencial para frear o tráfico?

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Primeiramente, o tráfico de animais silvestres está entre os crimes mais lucrativos do mundo. Ele se adapta, atravessa fronteiras, financia redes ilegais e destrói florestas, savanas, rios e mares de forma contínua, quase sempre de maneira silenciosa e invisível. No Brasil, esse crime não está longe dos olhos: ele aparece nas feiras, nas estradas, nos portos, em criadouros irregulares e, cada vez mais, nas redes sociais, onde a exposição transforma vidas em entretenimento e desejo.

E tudo isso tem grande impacto na proteção da biodiversidade.

Comércio legal não reduz o tráfico — e pode até ampliá-lo

Há quem defenda que permitir o comércio legal de algumas espécies reduziria o tráfico. A ideia parece lógica: se houver oferta legal, diminui-se a procura pelo ilegal. Porém, diferentes estudos mostram o oposto.

Contudo, quando a fiscalização é falha, a origem dos animais é facilmente camuflada. Anilhas e documentos podem ser fraudados, e indivíduos capturados na natureza são “lavados” como se tivessem nascido em cativeiro. Esse processo ficou conhecido como lavanderia de fauna — um mecanismo que esconde ilegalidades sob a aparência de legalidade e torna o combate ao tráfico ainda mais complexo.

Além disso, o comércio legal estimula a demanda. A normalização da posse aumenta a curiosidade, o desejo de consumo e a procura. Nas redes sociais, vídeos e fotos viralizam, transformam animais em objetos de engajamento e criam tendências que pressionam ainda mais a natureza. Dessa forma, um clique vira inspiração. A inspiração vira compra. E a compra alimenta um ciclo que começa na tela e termina na captura.

Riscos à saúde e ao bem-estar: a perspectiva da Saúde Única

O problema vai muito além da conservação. Sob a ótica da Saúde Única, o comércio de fauna — legal ou ilegal — representa um risco direto para a saúde pública.

Animais retirados de seu habitat passam por estresse intenso, convivem com espécies de diferentes regiões, enfrentam queda imunológica e vivem em condições que favorecem a disseminação de patógenos. Quando comercializados e transportados entre cidades, biomas e países, criam rotas artificiais de transmissão de vírus, bactérias e parasitas que jamais circulariam dessa forma na natureza.

O bem-estar individual também é gravemente afetado. Dessa forma, mesmo com boa intenção, o ambiente doméstico não oferece espaço, estímulos, clima, alimentação ou convivência social adequados para que a espécie expresse seu comportamento natural. Isso resulta em estresse crônico, automutilação, comportamentos repetitivos, doenças e encurtamento da vida.

Domesticação é um processo de milhares de anos e, dessa forma, não acontece porque colocamos um animal silvestre dentro de uma casa.

Tráfico: um crime global com múltiplas rotas e impactos

A UNODC registrou apreensões de mais de 13 milhões de espécimes ou partes de cerca de 4 mil espécies diferentes entre 2015 e 2021. Muitas delas possuem comércio permitido pela CITES, o que mostra que legalidade não significa proteção — significa fluxo.

A TRAFFIC aponta o Brasil como rota e origem importante de fauna ilegal, com repetidas inserções de animais capturados no comércio formal por brechas na fiscalização. A World Animal Protection reforça que milhões de animais são explorados para abastecer mercados de pets, moda, turismo e medicina sem embasamento científico, enfrentando mutilações, desnutrição, doenças e mortalidade elevada.

A resposta: reduzir o desejo que alimenta o crime

Para frear o tráfico, não basta punir. É preciso reduzir a demanda — o apetite social que mantém esse mercado vivo. É nessa frente que o Instituto AMPARA atua com iniciativas estratégicas:

Campanha Algoritmo Selvagem

Ação dentro do ambiente digital para reduzir conteúdos que incentivam a posse de animais silvestres, denunciando perfis e anúncios que promovem comércio e exibição irresponsável.

• Campanha Silvestre Não é Pet

Movimento que reforça que amor não é posse, e que cada animal pertence ao ambiente no qual evoluiu. Além disso, visa trazer à tona o sofrimento animal e a defesa da liberdade.

Movimento Sou Amigo da Fauna

Em parceria com Instituto Libio, Onçafari e SOS Pantanal, atua em educação, comunicação e prevenção, fortalecendo orientações e o controle de transporte de fauna em aeroportos. Essas ações enfrentam o problema em suas origens mais profundas: o desejo humano de transformar vidas em propriedade e a falta de fiscalização que permite que o crime continue.

A mudança cultural é o caminho no combate ao tráfico

Concluindo, proteger a fauna não é apenas impedir que o tráfico aconteça, é impedir que ele faça sentido.
Não é só salvar indivíduos apreendidos, é garantir que eles nunca sejam retirados da natureza.
Não é apenas punir, é desestimular o consumo que mantém esse crime vivo.

Portanto, quando a sociedade entende que silvestre não é pet, o tráfico perde força. Quando a cultura muda, o ciclo se quebra. E é isso que buscamos construir.

Materiais relevantes para consulta:

Texto escrito por Filipe Reis, Coordenador de Biodiversidade do Instituto Ampara Animal

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Instituto Ampara Animal

Somos uma ONG sem fins lucrativos, fundada e liderada por mulheres em 2010. Hoje, temos o titulo de OSCIP, reconhecendo nossa transparência e nos tornamos a maior organização de proteção e defesa animal do país, entre as 100 melhores ONGs do Brasil. Nosso propósito é transformar a sociedade por meio de ações de advocacy, educação e conscientização sobre os direitos dos animais.

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