Existem histórias que nos lembram por que a reabilitação de animais silvestres exige tempo, responsabilidade e respeito aos processos da natureza. A história desta onça-parda é uma delas.
Resgatado ainda filhote, em 2023, Tupã chegou à Base de Atendimento Ampara Pantanal (BAAP) trazendo consigo um enorme desafio. Mais do que recuperar sua condição física, era preciso devolver a ele aquilo que faz de uma onça-parda um animal verdadeiramente silvestre: seus instintos, seus comportamentos naturais e a capacidade de sobreviver sozinho.

Esse sempre foi o nosso objetivo.
Ao longo de quase três anos, cada decisão tomada pela equipe teve um único propósito: preparar Tupã para que, quando chegasse o momento, ele tivesse as melhores condições possíveis para viver novamente em liberdade.
Na reabilitação de fauna silvestre não existem atalhos. Existe planejamento, observação, conhecimento técnico. E diariamente, trabalhamos para que esse animal deixasse de depender dos cuidados humanos.
Durante esse período, Tupã passou pelo processo de reabilitação comportamental. Aprendeu a caçar, fortaleceu seus instintos naturais, foi submetido a protocolos de afugentamento para reduzir sua associação com pessoas e desenvolveu habilidades fundamentais para aumentar suas chances de sobrevivência na natureza.
Cada avanço aconteceu respeitando o tempo do próprio animal.
Uma história construída por muitas mãos
A trajetória de Tupã também é a história de centenas de pessoas que acreditaram na importância da conservação da fauna silvestre.
Em junho de 2026, ele recebeu um colar de monitoramento, equipamento essencial para o acompanhamento de animais após sua devolução à natureza.
Esse momento também foi possível graças à campanha Guardiões do Pantanal, realizada em agosto de 2025 em parceria com a Gift Aid. A mobilização reuniu centenas de doadores que decidiram apoiar o trabalho desenvolvido na BAAP e contribuir para a continuidade da reabilitação da fauna silvestre no Pantanal Norte.
Entre os objetivos da campanha estava justamente dar continuidade à preparação de Tupã, permitindo que ele concluísse todas as etapas necessárias de seu processo de reabilitação e a compra do equipamento de monitoramento pós-soltura.
Cada contribuição representou muito mais do que um recurso financeiro. Representou confiança em um trabalho construído com seriedade. Representou a certeza de que conservar a fauna brasileira é uma responsabilidade compartilhada.
A todos que fizeram parte dessa caminhada, fica o nosso mais sincero agradecimento.
A história da BAAP
A história de Tupã também se mistura à própria história da Base de Atendimento Ampara Pantanal.
O sonho de uma base de atendimento para animais silvestre na região nasceu da necessidade. Em 2020, durante os incêndios que devastaram o Pantanal e marcaram um dos momentos mais críticos da história recente do bioma. Diante daquela emergência sem precedentes, o Instituto Ampara Animal e outras organizações enfrentaram um cenário sombrio, onde os animais perdiam suas vidas pela região não possuir estruturas para atendimento.
O que começou como uma resposta emergencial transformou-se um legado.
E desde sua inauguração em novembro de 2023, centenas de animais passaram por nossos cuidados. Foram vítimas de queimadas, atropelamentos, conflitos com atividades humanas, órfãos, animais debilitados e tantos outros impactos provocados pela ação humana sobre a natureza.
Ao longo desses anos, a BAAP tornou-se um espaço dedicado não apenas ao atendimento veterinário, mas também à reabilitação comportamental e à preparação de animais para uma possível volta à vida livre, sempre respeitando critérios técnicos e o bem-estar de cada indivíduo.
Em 2026, a Base iniciou um novo capítulo de sua história. A operação passou a ser conduzida pelo Instituto Urihi, em parceria com a Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Mato Grosso (SEMA-MT), garantindo a continuidade desse importante trabalho em prol da conservação da fauna pantaneira.
Sobre a soltura de Tupã
Nesta primeira semana de agosto de 2026, Tupã foi solto em uma ação conduzida pela SEMA-MT, em conjunto com o Instituto Urihi, responsável pela operação da BAAP.
Por respeito aos nossos apoiadores, parceiros e à sociedade, consideramos importante esclarecer que o Instituto Ampara Animal não participou da decisão técnica referente à soltura de Tupã, nem da execução dessa etapa do processo.
É importante esclarecer que, por não se tratar de uma espécie classificada como ameaçada de extinção na lista nacional oficial, Tupã não estava sob a competência do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), por meio do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (CENAP), ou qualquer outra instituição, no que se refere às decisões sobre sua destinação. Nesses casos, a tutela legal do animal é do órgão ambiental estadual, para definir, de forma exclusiva, as decisões relacionadas ao seu destino, incluindo a soltura.
O monitoramento pós-soltura e todas as decisões relacionadas ao acompanhamento do animal são de responsabilidade da atual gestão da BAAP.
Fazemos esse esclarecimento porque acreditamos que a transparência também é parte fundamental da conservação. Cada instituição possui atribuições específicas, e comunicar com clareza o papel desempenhado por cada uma fortalece a confiança da sociedade no trabalho realizado em prol da fauna brasileira.
Seguimos torcendo por Tupã
Quem trabalha com reabilitação de fauna aprende que o verdadeiro sucesso nunca está apenas em um momento específico, mas em todo o caminho percorrido até ele.
Durante quase três anos, Tupã recebeu tudo aquilo que esteve ao nosso alcance oferecer: cuidado, conhecimento técnico, respeito ao seu comportamento natural e uma preparação construída dia após dia, sempre pensando em seu futuro.
É desse trabalho que nos orgulhamos.
Seguimos acreditando que reabilitar um animal silvestre é muito mais do que cuidar de um indivíduo. É investir na possibilidade de que ele volte a exercer seu papel ecológico, contribuindo para o equilíbrio dos ecossistemas e para a conservação da biodiversidade.
Agora, acompanhamos esse novo capítulo apenas como todos aqueles que fizeram parte de sua história.
Boa sorte, Tupã. Que o Pantanal seja, novamente, o lugar onde sua história continua. Você sempre seguirá em nossos pensamentos e torcida.



