Coexistência entre animais domésticos e silvestres: um desafio para as áreas protegidas

Área de Proteção Ambiental – APA Capivari-Monos, Parelheiros, São Paulo, SP Luccas Longo
Tempo de leitura: 4 minutos

Conflitos entre humanos, animais domésticos e silvestres são reais e trazem consequências para todos os envolvidos. Cães e gatos sem o manejo ético e populacional e o devido acompanhamento veterinário, vacinação e vermifugação, com acesso livre às áreas verdes e protegidas, podem gerar um conjunto de diferentes conflitos que comprometem a Saúde Única, ou seja, o equilíbrio entre a saúde animal, ambiental e humana.

Animais domésticos podem perseguir, ferir ou matar animais silvestres, competir por recursos e contribuir para a transmissão de doenças e zoonoses. Ao mesmo tempo, os próprios animais domésticos ficam expostos a zoonoses transmitidas por animais silvestres, podem ser atacados e/ou predados por eles, além de se perderem nas áreas naturais e enfrentarem outros riscos.

Quando todos perdem quando não promovemos a coexistência

E mais: esses impactos também podem atingir direta e indiretamente seus tutores, as comunidades vizinhas, os serviços públicos e as iniciativas destinadas à conservação da biodiversidade. Ou seja, todos perdem quando as ações de conservação não são pensadas do ponto de vista de uma só saúde, ou da Saúde Única.

Por isso, a prevenção, o manejo responsável e ético e a coexistência humano-fauna — sem se esquecer dos animais domésticos — devem fazer parte das estratégias de proteção e gestão desses territórios, seja na sua criação, zoneamento, plano de manejo e gestão participativa, por meio de seus conselhos gestores, assim como orienta o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza — SNUC — Lei Federal nº 9.985/2000.

Cada unidade de conservação possui suas particularidades

A fim de garantir ações de proteção e bem-estar animal, é fundamental reconhecer as diferenças entre as categorias de unidades de conservação estabelecidas pelo SNUC e instrumentos legais específicos antes de elaborar e estabelecer regramentos e estratégias para ações de coexistência humano-fauna.

Por exemplo, nas unidades de conservação de proteção integral, como os Parques Nacionais, Estaduais e Naturais, o objetivo principal é dar prioridade para o uso indireto da natureza pela pesquisa científica, educação ambiental e ecoturismo, além, é claro, da manutenção e enriquecimento da biodiversidade que essa área protegida zela.

Entretanto, as de uso sustentável, como as Áreas de Proteção Ambiental — APAs —, proporcionam o uso indireto dos recursos naturais, sendo, nesse caso, admitida a presença de ocupações humanas e de animais domésticos. Essa última categoria tem o desafio de conciliar a conservação da natureza com a presença e o uso responsável do território pelas populações humanas e seus animais domésticos.

A convivência com cães e gatos — além de outros animais, como os de fazenda, pois geralmente essas áreas são rurais — pode ser possível, desde que respeite o zoneamento, o plano de manejo, as normas de cada unidade e os limites necessários à proteção da fauna silvestre e dos ambientes naturais.

Coexistência exige soluções integradas

Nesses territórios, em especial os protegidos, a coexistência entre os seres depende de soluções construídas de modo participativo, técnico, integrado, estratégico e, o mais importante, de acordo com as singularidades de cada região.

Identificação e registro dos animais, vacinação, vermifugação, esterilização, atendimento veterinário, prevenção ao abandono e promoção da guarda responsável devem estar associados a medidas que impeçam que cães e gatos desacompanhados adentrem remanescentes naturais.

Incorporar essas ações à gestão urbana e das áreas protegidas significa reconhecer a Saúde Única como uma estratégia de conservação da natureza em que todos se beneficiam.

Um debate levado à UCBio

Esse foi também um dos temas debatidos durante a Conferência de Unidades de Conservação para a Biodiversidade — UCBio, realizada em junho de 2026, em Curitiba (PR).

A AMPARA Animal esteve presente no evento, participando das discussões, integrando mesas de discussão e apresentando ao público os produtos da AMPARA Store, que aproximam e promovem o diálogo sobre a relação entre a proteção e o bem-estar dos animais domésticos e a conservação da natureza.

Entre os temas debatidos durante o evento, destacaram-se os conflitos gerados entre populações humanas, animais domésticos e silvestres, especialmente nos territórios situados no interior ou na vizinhança de unidades de conservação e outras áreas protegidas.

Um novo olhar para nossas cidades

E, para saber mais sobre essa nova ótica do olhar para as cidades, mais coexistente, conheça o Manual Cidade Amiga da Fauna, instrumento elaborado pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo em conjunto com a AMPARA.

Proteger a fauna silvestre também é cuidar dos animais domésticos, das pessoas e dos ambientes compartilhados, construindo uma coexistência mais ética e equilibrada para todos.

Texto escrito por Luccas Longo, Gerente de Projetos Educativos do Instituto Ampara Animal.

Instituto Ampara Animal

Somos uma ONG sem fins lucrativos, fundada e liderada por mulheres em 2010. Hoje, temos o titulo de OSCIP, reconhecendo nossa transparência e nos tornamos a maior organização de proteção e defesa animal do país, entre as 100 melhores ONGs do Brasil. Nosso propósito é transformar a sociedade por meio de ações de advocacy, educação e conscientização sobre os direitos dos animais.

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