“Resgatar um animal era como apagar um incêndio com um balde d’água. O problema era muito maior, e eu precisei encarar essa verdade”
Se me contassem, anos atrás, que minha vida mudaria completamente por causa de uma inquietação no peito e de um cachorro em perigo, talvez eu não acreditasse. Nasci em Alto Paraná, no interior do Paraná, e, aos 17 anos, não sabia exatamente o que queria fazer da vida. Fui estudar Turismo e Hotelaria e, durante a faculdade, as aulas de Ecologia e Ecossustentabilidade despertaram em mim uma preocupação cada vez maior com o meio ambiente.
Depois, fui para São Paulo fazer uma pós-graduação em Gestão Ambiental. Para me manter na cidade, trabalhei como modelo e depois fui para a televisão. Fiz teatro, participei de programas de entretenimento e esportes e descobri que a comunicação poderia ser uma ferramenta poderosa para falar sobre questões ambientais. Cheguei a criar um projeto de programa de educação ambiental, mas percebi como era difícil levar esse tipo de conteúdo à televisão sem esbarrar nos interesses comerciais.
Quando a paixão virou um propósito
Ao mesmo tempo, me aproximei da proteção animal. Comecei a atuar como voluntária na AILA, em Paraisópolis, e foi lá que conheci Marta Giraldes, fundamental na minha trajetória. Ela me ensinou muito e me deu um conselho que, naquele momento, eu não quis ouvir: se eu realmente quisesse transformar a realidade dos animais, não deveria criar um abrigo. A chave estava na prevenção, especialmente na castração.
Eu era teimosa. Junto com minha amiga Marcele Becker, comecei a acolher cães e gatos por conta própria. Abrimos uma estrutura e, em pouco tempo, estávamos com tantos animais que nos endividamos. Foram cerca de três anos no limite, com voluntários, contas aumentando e a sensação de que nunca conseguiríamos atender a todos. Mas, aos poucos, entendi que resgatar um animal era como apagar um incêndio com um balde d’água. A cada animal salvo, apareciam muitos outros.
A escolha pela prevenção e pela profissionalização
Foi quando percebi que precisava mudar a maneira de fazer as coisas. Fiz uma pós-graduação em Gestão do Terceiro Setor e comecei a estudar como funcionavam a filantropia, a gestão e a sustentabilidade das organizações sociais. Descobri uma causa cheia de pessoas apaixonadas e muito comprometidas, mas que muitas vezes trabalhavam de maneira informal, sem estrutura e sem apoio.
Em 2010, fundei a AMPARA Animal ao lado de Marcele Becker, Raquel Facuri e Cassiana Garcia. Dessa vez, não queríamos ser apenas mais um abrigo. Queríamos construir uma rede capaz de apoiar quem já estava na linha de frente, com recursos, informação, atendimento veterinário, medicamentos, vacinas, adoção e capacitação. Eu finalmente entendi que, para alcançar mais animais, precisávamos profissionalizar a causa.
Isso também significou aprender a administrar uma organização como uma empresa, sem perder de vista que nosso objetivo não era gerar lucro, mas impacto. Aprendi que amor é fundamental, mas sozinho não sustenta uma organização. É preciso planejamento, transparência, pessoas qualificadas, comunicação, captação de recursos e coragem para tomar decisões difíceis.
Outra mudança importante aconteceu quando ampliamos nosso olhar para a fauna silvestre. Em uma visita a um Centro de Reabilitação de Animais Silvestres, presenciei a chegada de uma apreensão com mais de 200 papagaios. Eles precisavam ser alimentados de duas em duas horas e não havia mão de obra suficiente para cuidar de todos. Aquela cena me mostrou, de maneira muito concreta, que a dimensão do problema era muito maior. Em 2016, criamos a Ampara Silvestre para atuar também na proteção da fauna nativa.
Amor, estratégia e impacto!
Minha trajetória não foi linear e nunca foi fácil. Já pensei em desistir. Cometi erros, passei por crises financeiras, inseguranças e momentos de cansaço. Também aprendi que nem todo mundo que está ao nosso lado necessariamente quer o nosso sucesso. Cada dificuldade me obrigou a amadurecer e a entender que maturidade emocional é tão importante quanto conhecimento técnico.
Hoje, continuo acreditando que a proteção animal precisa ir muito além do resgate. Precisamos trabalhar com prevenção, educação, políticas públicas, conservação, advocacy e mudança de comportamento. Precisamos mostrar que respeitar os animais tem relação com saúde, meio ambiente, justiça social e com o tipo de sociedade que queremos construir.
Quando olho para trás, vejo que comecei de maneira improvisada e cheia de paixão. O amor foi o ponto de partida, mas foi a estratégia que permitiu que esse sonho ganhasse escala. E talvez essa seja uma das maiores lições que levo comigo: não precisamos ter todas as respostas para começar. Precisamos ter coragem para dar o primeiro passo e humildade para aprender durante o caminho.
Um sonho para o futuro
Meu sonho é que, um dia, organizações como a nossa não sejam mais necessárias. Que a proteção animal seja reconhecida como parte essencial da justiça social e que o respeito aos animais seja natural em uma sociedade verdadeiramente consciente.
Até lá, sigo fazendo o que aprendi nessa caminhada: aprendendo, errando, acertando, caindo e levantando. Sempre com coragem, técnica e, claro, muito amor.
Mini bio

Juliana Camargo é fundadora e presidente do Instituto Ampara Animal, organização criada em 2010 para atuar na proteção e defesa dos animais.
Natural de Alto Paraná (PR), é formada em Turismo e Hotelaria e pós-graduada em Gestão Ambiental e Gestão do Terceiro Setor.
À frente da Ampara, ampliou sua atuação para cães, gatos e fauna silvestre, unindo proteção animal, educação, conservação e profissionalização do terceiro setor.



