O camarote mais importante do Lollapalooza 2026 não tinha pulseira VIP. Tinha vida. Em meio a milhares de pessoas, luzes, estruturas e som intenso, uma outra história acontecia silenciosa, mas fundamental: uma família de quero-quero ocupando aquele espaço como sempre fez.
E, dessa vez, houve escolha. Escolha por respeitar e por proteger. Antes mesmo do evento acontecer, o Instituto Ampara Animal realizou uma visita técnica na área, com levantamento de espécies e identificação de pontos sensíveis para a fauna. Esse trabalho permitiu antecipar riscos e orientar decisões mais responsáveis.




A partir desse olhar, uma área foi isolada para garantir o bem-estar da família de quero-quero. Uma medida simples, mas que representa um avanço significativo na forma como eventos podem e devem se relacionar com a biodiversidade.
Esse cuidado, que pode parecer pontual, marca um novo caminho: o da prevenção baseada em conhecimento técnico.
Quando a ausência de planejamento vira risco
Essa mudança não surgiu por acaso. No ano anterior, durante o mesmo evento, uma família de quero-quero foi pisoteada. O resgate foi difícil, os cuidados limitados e, principalmente, faltava algo essencial: planejamento prévio.
Esse tipo de situação é mais comum do que parece, e quase sempre invisível.
Eventos realizados em áreas verdes, especialmente em grandes cidades como São Paulo, vêm se tornando cada vez mais frequentes. Parques concessionados recebem shows, festivais, exposições e grandes fluxos de público.
Mas, junto com essas estruturas, chegam também impactos significativos:
- aumento repentino da circulação de pessoas
- ruído intenso e contínuo
- iluminação artificial ampliada
- alterações físicas no ambiente
- compactação do solo e perda de vegetação
E tudo isso afeta diretamente os animais silvestres que vivem nesses espaços. Mesmo que não sejam vistos.
A fauna urbana está presente
A ausência de percepção não significa ausência de vida. Parques urbanos, áreas verdes e fragmentos de vegetação são refúgios importantes para diversas espécies: aves, pequenos mamíferos, anfíbios, répteis e insetos. Esses animais utilizam esses espaços para alimentação, reprodução e abrigo.
No caso dos quero-queros, por exemplo, é comum que façam ninhos diretamente no solo, o que os torna extremamente vulneráveis em ambientes com grande circulação humana. Sem planejamento, o risco de atropelamentos, pisoteamentos, abandono de ninhos e estresse é alto. E, muitas vezes, irreversível.
Prevenir é uma responsabilidade, não uma escolha
O caso do Lollapalooza 2026 mostra que é possível fazer diferente e que isso começa antes do evento acontecer. A atuação técnica, o mapeamento prévio e a adoção de medidas preventivas demonstram, assim, que eventos podem ser planejados de forma mais responsável com a fauna silvestre.
Mas esse não pode ser um caso isolado. A realização de eventos em áreas verdes precisa incorporar, de forma sistemática, protocolos de proteção à fauna.
Isso inclui:
- mapeamento prévio de espécies e áreas sensíveis
- acompanhamento técnico especializado
- adaptação de estruturas e fluxos de público
- sinalização e isolamento de áreas de risco
- planos de contingência para emergências com fauna
Mais do que mitigar impactos, é preciso evitá-los.
Coexistir é uma responsabilidade coletiva
A expansão urbana já impôs inúmeros desafios à fauna silvestre. Dessa forma, quando ocupamos esses espaços com eventos de grande porte, a responsabilidade se torna ainda maior. Não se trata de impedir o uso desses locais, mas de repensar como utilizá-los.
E isso envolve organizadores, poder público, concessionárias e também o público.
Caminhos possíveis: planejamento e educação
A boa notícia é que já existem caminhos. O Manual Cidade Amiga da Fauna, desenvolvido pelo Instituto Ampara Animal em parceria com a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente da Prefeitura de São Paulo, reúne diretrizes e soluções para tornar os ambientes urbanos mais seguros e acolhedores para a biodiversidade, incluindo recomendações aplicáveis a eventos em áreas verdes.

Entre os pontos abordados, estão:
- redução de impactos em áreas sensíveis
- manejo adequado da vegetação
- planejamento de intervenções humanas
- promoção da conectividade ecológica
- incentivo à convivência responsável com a fauna
Conhecimento é ferramenta de transformação.
Que o cuidado deixe de ser regra e não exceção
A iniciativa adotada no Lollapalooza 2026 mostra que é possível avançar. Mas também evidencia algo importante: ainda estamos começando.
Garantir a proteção da fauna silvestre em eventos não pode depender de situações emergenciais ou decisões pontuais. Precisa ser regra. Porque esses animais já estavam ali antes e continuam ali, mesmo quando não vemos.
Por fim, proteger a fauna silvestre é proteger os ecossistemas, a biodiversidade e a qualidade de vida nas cidades. E isso começa com planejamento e responsabilidade.



