Ondas de calor recordes, eventos extremos cada vez mais frequentes, colapsos ambientais que deixam de ser exceção e passam a compor a rotina. As mudanças climáticas já não são uma projeção futura: elas acontecem agora. Ainda assim, a forma como esse tema é apresentado ao grande público segue, muitas vezes, superficial e isso importa.
A grande mídia tem um papel central na construção do entendimento coletivo sobre a crise climática. É por meio das manchetes, imagens e narrativas jornalísticas que a maior parte da população acessa informações sobre o aquecimento global e suas consequências. O problema é que, não raramente, essa cobertura se limita ao impacto imediato sobre a vida humana. Ou seja, reportagens rasas sobre “verão mais quente”, imagens de praias lotadas, pessoas se refrescando, consumo de bebidas geladas ou dicas para enfrentar o calor.
Essa abordagem banaliza um problema que é profundo, sistêmico e urgente.
O que fica fora do enquadramento
Quando a crise climática é retratada apenas como desconforto térmico ou alteração sazonal, perde-se a dimensão real do que está em jogo. O aquecimento global não é apenas sobre calor: ele envolve perda de biodiversidade, colapso de ecossistemas, insegurança alimentar, emergência sanitária e desequilíbrios que afetam todas as formas de vida.
A fauna silvestre, por exemplo, já sente de forma direta os impactos das mudanças climáticas. Aumento de temperaturas, escassez de água, alteração de ciclos naturais, incêndios e eventos extremos mais recorrentes e intensos e destruição de habitats colocam espécies inteiras em risco. Um estudo da Universidade de Connecticut, publicado na revista Science, estima que as mudanças climáticas, sozinhas, podem levar ao desaparecimento de quase 8% das espécies animais atuais.
Ainda assim, essas vítimas quase nunca aparecem nas imagens que ilustram o aquecimento global.
Mudanças climáticas são uma questão de Saúde Única
Ignorar a fauna e os ecossistemas na cobertura climática também significa ignorar o conceito de Saúde Única. A compreensão de que a saúde humana, animal e ambiental são indissociáveis.
A degradação ambiental impacta diretamente a saúde das populações humanas, seja por meio do aumento de zoonoses, da perda de serviços ecossistêmicos, da insegurança hídrica ou alimentar. Dessa forma, quando a mídia trata a crise climática como algo distante da biodiversidade, reforça uma falsa separação entre “nós” e o resto da natureza, uma separação que não existe na realidade.
Mostrar apenas praias e lazer não informa. Não conscientiza. Não mobiliza.
A importância de mostrar a realidade para transformar
Imagens têm poder. Ou seja, elas constroem imaginários, despertam emoções e moldam percepções e podem mobilizar. Ao retratar a crise climática de maneira leve ou distante, a comunicação pública reduz a sensação de urgência sobre o tema. Portanto, se suas verdadeiras consequências permanecem invisíveis, a transformação se torna mais difícil.
É nesse contexto que nasce o Banco de Imagens do Clima, lançado em novembro de 2024 pelo Instituto Ampara Animal.
A iniciativa é o primeiro acervo gratuito e livre de royalties com fotos e vídeos de animais silvestres, criado especialmente para uso jornalístico. Assim, o objetivo é oferecer à mídia uma alternativa concreta às imagens que hoje banalizam o aquecimento global, aproximando a narrativa de quem já sofre diretamente seus impactos.
O que é o Banco de Imagens do Clima
O Banco de Imagens do Clima reúne registros do acervo do Instituto Ampara Animal e comunicadores voluntários que mostram animais afetados pelo aumento das temperaturas e pela destruição de seus habitats. Todo o conteúdo pode ser utilizado gratuitamente por jornais, revistas, portais e emissoras, desde que sejam mantidos os créditos e um link para um vídeo educativo que explica como o aquecimento global ameaça tanto humanos quanto animais silvestres.
Mais do que um banco de imagens, trata-se de um convite à responsabilidade editorial.
Como destaca Juliana Camargo, presidente do Instituto Ampara Animal:
“É fundamental que jornalistas e comunicadores usem seu espaço para mostrar para toda a sociedade as imagens reais do aquecimento global.”
Mudar a narrativa é parte da solução
Por fim, transformar a forma como falamos sobre mudanças climáticas é parte essencial do enfrentamento da crise. Isso passa por reconhecer que o problema é mais profundo do que ondas de calor, que envolve toda a teia da vida e que exige uma abordagem honesta, complexa e responsável.
Ao colocar a biodiversidade no centro da narrativa, portanto, o Banco de Imagens do Clima contribui para ampliar o olhar, fortalecer a consciência coletiva e aproximar o público da realidade que precisa ser enfrentada, antes que seja tarde demais.
O acervo já está disponível em bancodeimagensdoclima.org.br, e o Instituto Ampara Animal convida profissionais da imprensa, comunicadores e veículos de mídia a utilizarem o material e a todos que estão conosco pela biodiversidade à divulgar esta campanha!
Porque mostrar a realidade é o primeiro passo para transformá-la.
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