Recentemente, uma onça-pintada foi resgatada depois de ficar presa em um canal de água de uma pequena central hidrelétrica no Mato Grosso. Ela sobreviveu. Mas a maioria dos animais não tem essa chance.
Todos os dias, em diferentes regiões do Brasil e do mundo, animais silvestres caem em canais artificiais e não conseguem sair. Eles se aproximam da água para beber, tentam atravessar ou simplesmente seguem seu caminho. Então escorregam.
As paredes são lisas, íngremes, muitas vezes revestidas de concreto. Sem apoio, sem rota de fuga, nadam por horas até a exaustão e morrem afogados.

É um tipo de impacto silencioso, que quase nunca entra nas estatísticas, mas que acontece continuamente.
Canais artificiais estão matando animais e a ciência comprova
Por muito tempo, essas mortes ficaram restritas a relatos pontuais. Mas a ciência começa a revelar a dimensão do problema.
Um estudo publicado na revista Biological Conservation monitorou canais artificiais no norte da Argentina, no bioma Gran Chaco, e registrou 207 animais mortos, de pelo menos 35 espécies diferentes, em apenas seis meses.
Entre eles estavam tamanduás, tatus, veados, porcos-do-mato e répteis, incluindo espécies ameaçadas.
E esse número, segundo os próprios pesquisadores, é apenas uma fração da realidade, já que muitos corpos não são detectados ou são levados pela água.
Defaunação: quando os animais simplesmente deixam de existir
Mas a preocupação não está apenas na quantidade de mortes. Ao longo do tempo, os pesquisadores observaram uma queda no número de animais encontrados. A princípio, isso poderia indicar uma melhora. Mas a interpretação é outra: os animais deixaram de aparecer porque já não estão mais ali.
O canal não está apenas matando indivíduos, ele está esvaziando populações inteiras. Esse processo, conhecido como defaunação, representa uma perda silenciosa de biodiversidade que compromete o equilíbrio dos ecossistemas.
Fragmentação de habitat: o impacto vai além do afogamento
Os impactos não se limitam ao afogamento. Canais artificiais também funcionam como barreiras físicas na paisagem, fragmentando habitats e interrompendo rotas naturais de deslocamento.
Assim, animais deixam de acessar áreas essenciais para alimentação, reprodução e abrigo. Com o tempo, populações ficam isoladas, o fluxo genético diminui e a viabilidade dessas espécies é comprometida.
Mesmo aqueles indivíduos que nunca caem em um canal acabam sendo afetados por ele.
Fauna brasileira em perigo
Estudos em diferentes regiões do mundo, como Espanha e Chile, já documentaram a morte de milhares de vertebrados em canais de irrigação.
No Brasil não é diferente. Os casos começam a ganhar visibilidade, embora ainda faltem dados sistemáticos. No oeste da Bahia, por exemplo, foram registradas mortes de lobos-guará em canais de irrigação, incluindo uma fêmea e suas crias.

Foto: Maria Julia Stenberg, Onçafari/via Proteção Animal Mundial
Há relatos envolvendo também tatus, tamanduás, capivaras e pequenos mamíferos. O recente resgate da onça-pintada no Mato Grosso não é um caso isolado, é apenas um raro momento em que esse impacto se torna visível.
Infraestruturas hídricas sem planejamento para a fauna
Esse cenário está diretamente relacionado à expansão de infraestruturas hídricas no país. Canais de irrigação, sistemas de drenagem, adutoras e reservatórios vêm se multiplicando com o avanço da agropecuária e da geração de energia.
No entanto, essas estruturas, na maioria das vezes, são planejadas sem considerar adequadamente a fauna silvestre. Não há monitoramento contínuo, nem transparência de dados, e frequentemente não existem medidas obrigatórias de mitigação.
Existem soluções viáveis
Evitar essas mortes é totalmente possível. Existem soluções técnicas conhecidas e relativamente simples, como:
- instalação de rampas de escape
- ajustes na inclinação das paredes
- criação de pontos de saída ao longo dos canais
- cercamento
- substituição de canais abertos por tubulações fechadas
O problema, portanto, não é falta de conhecimento. É falta de prioridade.
Um impacto silencioso que precisa ser enfrentado
A crise da biodiversidade não acontece apenas em grandes desmatamentos ou eventos extremos. Ela também se manifesta nesses processos silenciosos, espalhados pela paisagem, em estruturas que parecem inofensivas, mas que funcionam como armadilhas letais.
A onça resgatada no Mato Grosso sobreviveu. Mas quantos outros animais morreram sem que ninguém visse Quantos ainda vão morrer até que esse problema seja reconhecido e enfrentado com a urgência que merece?
Texto escrito por Filipe Reis, Coordenador de Biodiversidade do Instituto Ampara Animal.



