Projeto “Em Busca dos Sobreviventes”: Monitoramento de bugio-ruivo (Alouatta guariba) em fragmentos de Mata Atlântica na cidade de São Paulo
O Projeto Bugio-ruivo – Em Busca dos Sobreviventes encerra sua primeira etapa com resultados relevantes para a ciência, a conservação da biodiversidade e a educação ambiental.
O projeto teve início em junho de 2023 e sua primeira fase foi concluída em abril de 2025, com foco no monitoramento de populações de bugio-ruivo (Alouatta guariba) em fragmentos de Mata Atlântica no município de São Paulo, sudeste do Brasil.
Por que monitorar o bugio-ruivo em São Paulo?
Inicialmente, as principais perguntas que motivaram o monitoramento foram compreender como se encontravam as populações remanescentes de bugios-ruivos após os surtos de febre amarela registrados no município de São Paulo, especialmente o grande surto ocorrido entre 2016 e 2019.
Nesse período, foram registrados 838 óbitos de primatas não humanos acometidos pelo vírus da febre amarela no estado de São Paulo. É importante destacar que esses números são, muitas vezes, subestimados, uma vez que o difícil acesso a áreas de mata e o avançado estado de decomposição dos animais impedem a confirmação de muitos casos.
Metodologia de monitoramento de primatas
Para a coleta de dados, utilizamos uma metodologia de campo amplamente aplicada para estimar densidade populacional de primatas. O método consiste em:
- Percorrer linhas retas (transectos) dentro da área de interesse
- Manter uma velocidade reduzida, em torno de 2 km/h
- Registrar uma série de informações sempre que os bugios são avistados
Dessa forma, essa metodologia permite avaliar a presença, abundância, composição dos grupos e comportamento da espécie ao longo do tempo.

Imagem: Gráfico adaptado do Guia de Procedimentos de Mamíferos e Aves do Monitoramento da Biodiversidade – Monitora ICMBio.
Disponível em: https://www.gov.br/icmbio/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/publicacoes-diversas/Guia_de_Procedimentos_Mamiferos_e_Aves_versao_final.pdf
Esforço amostral e áreas monitoradas
Ao longo dos dois anos de projeto, assim, a equipe percorreu mais de 700 km dentro das florestas dos parques da Zona Sul do município de São Paulo.
Além das trilhas terrestres, também realizamos monitoramento embarcado na Represa Billings, percorrendo mais de 100 km por via aquática para avistar bugios nas bordas de mata.
Resultados do monitoramento do bugio-ruivo
Durante o projeto, a equipe registrou:
- Mais de 120 grupos de bugios-ruivos
- Cerca de 500 indivíduos
- Seis regiões diferentes monitoradas
Embora os dados indiquem, em comparação com levantamentos anteriores, uma redução no número de avistamentos, também foram observados grupos ativos, desempenhando comportamentos naturais, reprodução e presença de muitos filhotes.

Imagem: Equipe em campo, durante monitoramento na região sul de São Paulo.
Esses registros indicam populações resilientes, mesmo diante das intensas pressões ambientais impostas pelo contexto urbano.
Bugios-ruivos e seu papel ecológico: os jardineiros da floresta
Uma das informações coletadas ao longo do monitoramento foi a presença de fezes de bugio-ruivo ao longo das trilhas. Mas por que esse dado é tão importante?
A análise dessas fezes permite confirmar que os bugios estão desempenhando um de seus principais papéis ecológicos: a dispersão de sementes. Ao se alimentarem de frutos, os primatas se deslocam por grandes áreas da floresta. Durante o processo digestivo, as sementes passam por quebras de dormência, aumentando suas chances de germinação.
Dessa forma, os bugios-ruivos atuam literalmente como plantadores de árvores, contribuindo para a manutenção da Mata Atlântica em pé.

Fezes frescas de bugio-ruivo.
Foto: Juliana França.
Riscos urbanos: eletrocussões e perda de conectividade florestal
Infelizmente, durante o projeto, a equipe registrou eventos graves de eletrocussão envolvendo bugios-ruivos. Em 2023, uma fêmea sofreu choque elétrico ao cruzar uma estrada no Parque Natural Municipal Varginha, utilizando postes de energia para se deslocar entre fragmentos florestais.
Além desse caso, outros dois eventos de eletrocussão foram registrados em 2024, relatados por colaboradores do parque, além de incidentes envolvendo saguis e preguiças.
Esses episódios, portanto, evidenciam a urgência de mitigar riscos associados a estruturas artificiais, como redes elétricas, em ambientes florestais fragmentados. O registro desses eventos é fundamental para propor melhorias no manejo, intervenções corretivas e soluções que permitam a coexistência segura entre fauna e cidade.
Maior registro de bugios: o caso do Parque Estadual Fontes do Ipiranga
O Parque Estadual Fontes do Ipiranga foi a área com maior número de avistamentos de grupos de bugio-ruivo. À primeira vista, isso pode parecer extremamente positivo, e, de fato, indica sobrevivência e reprodução da espécie.
No entanto, é preciso compreender o contexto: o parque funciona como uma ilha de Mata Atlântica cercada pela urbanização de São Paulo. Os animais estão confinados a uma área reduzida, enfrentando conflitos sonoros, tráfego intenso, linhas de pipa cortantes e ausência de conectividade com outras áreas florestais.
Esse isolamento favorece a endogamia, ou seja, o cruzamento entre indivíduos aparentados, o que reduz a variabilidade genética e aumenta a susceptibilidade a doenças.
Assim, propor cidades mais resilientes às mudanças climáticas para os seres humanos também significa criar ambientes mais saudáveis para coexistirmos com espécies emblemáticas como o bugio-ruivo, verdadeiro guardião das florestas.
Educação ambiental, voluntariado e engajamento comunitário
Ao longo dos dois anos de projeto, foi desenvolvido um programa de voluntariado, em parceria com universidades e escolas de São Paulo. Ou seja, estudantes e voluntários participaram ativamente das atividades de campo, contribuindo tanto para a pesquisa científica quanto para sua formação prática.


Imagens: Ações de educação ambiental do projeto – Ação no CEU Cidade Dutra para mais de 500 alunos (dir.) e estreia do documentário “Jardineiros” realizado em parceria com a produtora Dominó Preto no Cine Solar, no Parque do Ibirapuera em 2024.
Dessa vivência, nasceram importantes desdobramentos culturais e educativos, como o documentário “Jardineiros”, produzido por Pedro Cerqueira, e o livro infantojuvenil escrito por Catarina Mazarin, que conta a história das famílias de bugios e do projeto de reintrodução liderado pela SVMA, no qual colaboramos ativamente.
Também contamos com o apoio fundamental de guarda-parques, que acompanharam a equipe em diversas atividades de campo.
Conservação feita com pessoas
Renan Oliveira, um dos voluntários e biólogo do projeto desde 2023 relata:
“A experiência como voluntário no Projeto Bugio-ruivo foi extremamente enriquecedora por diversos motivos. Um deles foi o aprofundamento no conhecimento sobre a biodiversidade local e sobre a própria espécie. As ações do projeto possibilitaram o envolvimento da comunidade local, que muitas vezes desconhecia a importância dos bugios para a natureza e que hoje se preocupa ativamente com a conservação da espécie, tornando-se verdadeira aliada na sua proteção. Um exemplo marcante são os guarda-parques que, no passado, atuavam como caçadores e hoje são multiplicadores da educação ambiental e da conservação. Tenho imenso orgulho de ter feito parte dessa iniciativa. Precisamos continuar e divulgar cada vez mais as ações do projeto, ampliando a conscientização sobre a importância dos primatas para a manutenção das nossas florestas.”
Como relatado por um dos nossos voluntários, o envolvimento da comunidade local no desenvolvimento da pesquisa científica foi primordial!
Desenvolvemos cartilhas educativas, ações em escolas locais, oficinas com gestores e condutores dos parques, criando uma grande rede de informação, conhecimento e partilha de experiencias. Todos unidos em prol da conservação do bugio. Afinal, o bugio é símbolo de resiliência e persistência, quando temos famílias de bugios vivendo em florestas significa que temos florestas mais saudáveis, sendo semeadas e casa uma variedade de seres vivos, incluindo nós seres humanos. Afinal, somos todos natureza, somos todos silvestres.
Bugios, florestas e futuro
O bugio-ruivo é um símbolo de resiliência e persistência. Onde existem famílias de bugios, existem florestas mais saudáveis, capazes de sustentar uma grande diversidade de vida, inclusive a nossa.
Afinal, somos todos natureza. Somos todos silvestres.
Por fim, os recursos para a execução do projeto foram cedidos pelo Instituto Ampara Animal, com apoio parcial da Primate Society of Great Britain, por meio de seus grants de conservação.
Acesso: https://www.psgb.org/pages/56-2022-grantees
Texto escrito e adaptado a partir do relatório final de atividades, como parte do processo de licenciamento estadual e municipal.
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